Paraíso

Texto produzido na live de escrita de 17/09, lá na Twitch. Preciso me lembrar de salvar os VODs porque já me esqueci de qual foi a prompt que levou a este texto. Enfim, espero que seja uma leitura agradável.

Aqui no paraíso é tudo muito simples.

Mas não se engane, não é simples no sentido de minimalista, mas sim no sentido de fácil entendimento. Depois que se morre, sem as limitações físicas de armazenamento do cérebro, a consciência consegue abranger mais e mais informações, de forma que nada é absurdo.

Por exemplo: os óculos que uso neste momento são apenas por mera estética; sempre achei que um objeto desses deixa as pessoas mais charmosas e com cara de inteligente. Muita gente já me enganou em vida, inclusive, justamente porque levei a primeira vista a sério e, por isso, tive de conviver com gente burra por muito tempo.

Enfim, não vou prorrogar muito a história porque a gôndola já está para passar.

Sim, aqui no céu nós podemos escolher o nosso ambiente e escolhi minha cidade preferida e mais bela de todas: Veneza.

Beleza, como você sabe, sempre foi algo que tive em alta estima durante os 55 anos em que vivi. Tentei ser consultor de moda uma vez, mas fui demitido porque meu gosto era muito “peculiar”. As pessoas achavam que falar “peculiar” me deixaria triste o suficiente para me tornar menos extravagante, mas sempre fui a favor de não dar ouvidos a ninguém que tentasse ditar quem eu era. Foi assim que morri feliz.

Ah! A gôndola está aqui!

Tenho de narrar assim porque, apesar de eu estar no seu sonho, duvido que você esteja vendo as mesmas imagens que eu.

— Vamos até o Brasil! — digo a ela, enquanto bato em sua lateral.

Eu sei, parece fantasioso, mas lembre-se do que eu disse no início: aqui o cérebro não existe e vemos que a fantasia é tão real quanto qualquer outra coisa.

Estamos agora passando debaixo de uma ponte e, por cima dessa ponte, alguns pinguins saltitam felizes em direção ao rio mais próximo. Até os pinguins conseguem inventar seu próprio mundo por aqui.

É claro que não necessariamente passamos um pelo mundo do outro, apenas nos cruzamos temporariamente porque, embora o espaço seja infinito, às vezes rola um certo congestionamento quando cada ser que morreu quer uma coisa diferente.

Para fazer justiça, o ser Onipotente decidiu criar o sistema em que os mundos colidem temporariamente, mas sem que um atrapalhe o caminho do outro. É lógico que essa decisão só foi tomada depois que um bacalhau comeu uma lagosta porque, por coincidência, a lagosta decidiu ir passear justamente na hora em que o Bacalhau disse: “quero comer uma lagosta”.

Foi um estrago muito grande que gerou muita falação nos dias seguintes, já que ninguém sabia explicar o que acontece com os seres quando eles morrem já depois de mortos. O próprio ser Onipotente se fingiu de morto na situação. Acho que ele não tinha esperanças de vencer qualquer argumento.

Mas vamos voltar ao assunto que interessa: descrever a paisagem ao meu redor. A gôndola faz uma leve curva e adentra uma floresta. É tudo muito bonito e cheio de cores, mesmo que sejam apenas vários tons diferentes de verde. Acima, bem acima, há um trilho de trem – e consequentemente um trem – que passa por cima das árvores. Lembra um pouco aquelas cenas de alguns filmes de Harry Potter, se quiser uma imagem mais precisa. Inclusive, um carro voador acaba de passar a alguns metros acima de mim.

Confesso que isso, para mim, já é loucura. Mesmo morto, não teria coragem de voar em um carro. Voar em um avião é uma coisa, mas carro não foi feito para isso! Vai que acontece alguma explosão no motor e eu morro de novo? O lado positivo, talvez, seria descobrir o que aconteceu com aquela lagosta.

A gôndola faz mais uma curva agora, mas um pouco mais íngreme, e a água do rio inteiro parece entrar no meu chinelo. Ainda bem que o sol está quente! Esse lugar é mesmo um deleite! Sempre que me dá vontade eu escolho que os dias fiquem como dias típicos de verão, para me lembrar dos tempos na Terra em que a piscina reinava durante o dia e as estrelas reinavam durante a noite. Lembro de uma estrela específica que, quando eu me deitava sobre o gramado, parecia piscar para mim. Sempre imaginei que fosse minha mãe, porque, no enterro dela, me lembro de ver apenas uma estrela no céu. Eu nunca tinha ido a um enterro à noite antes do dela. Tempos esquisitos aqueles em que tínhamos que enterrar os mortos pouco depois de a morte ser declarada.

Mas não quero me lembrar do fracasso do governo daquela época. O importante é que você saiba como são as coisas “aqui em cima”, se é que podemos chamar o infinito de “aqui em cima”. De forma que se assemelha mais ao que a mente humana consegue entender, é como se estivéssemos em uma outra dimensão, paralela à de vocês. Muito louco imaginar que muitos dos livros de ficção científica que li eram reais.

Meu apartamento, aliás, eu fiz questão de que fosse todo de vidro, pois assim consigo ter uma visão completa dos humanos quando estou de bom humor. E, claro, também guardo meu iate na garagem para os momentos em que me canso de andar de gôndola.

A floresta agora se abre e eu vejo que estou chegando ao meu destino. Pelo tempo que passei aqui te contando tudo isso, acredito que você também esteja chegando ao fim do seu sonho.

Tenha um bom dia, filho, e, quando se levantar da cama, diga à sua mãe que eu a amo.

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Assexualidade, arromanticidade e o serviço público prestado por Alice Oseman

A sociedade é obcecada por sexo.

Se você não faz ou se sexo não é quase uma prioridade na sua vida, provavelmente algum problema você tem.

Se você declarar que não se lembra da última vez que beijou alguém ou que sentiu vontade de estar num relacionamento (e não se lembra porque provavelmente a vontade nunca existiu), você precisa urgentemente se tratar, pois não é normal que uma pessoa não sinta vontade de estar com outra. Será que não são os remédios para a depressão que te deixam assim? Afinal, já diria Tom Jobim: “é impossível ser feliz sozinho”.

A gente cresce vendo amiguinhas se apaixonarem e os familiares inconvenientes perguntando sobre os namoradinhos (e os mais inconvenientes perguntando se não seriam namoradinhas, já que nada explica você estar sozinha, sendo bonita, independente e relativamente bem-sucedida — e como se houvesse algum problema se fossem, de fato, namoradinhas). Parece que tem medo de homem!, dizia meu avô, enquanto eu dava risada e pensava: existe alguma mulher que NÃO tenha medo de homem?

Mas essa não é a questão.

A questão é que a gente é ensinado desde sempre — sejamos homens, mulheres ou não-bináries — a buscar pelo amor romântico, por aquele momento que vai fazer nosso coração parar de bater e se encher com o coração do outro. A gente é ensinado que o ser humano está na Terra para nascer, crescer, se reproduzir e depois morrer, e que essa é a única forma de felicidade; a única que deve fazer sentido para todo mundo.

Então, a gente força o nosso próprio coração a se partir 400 mil vezes, pensando que a felicidade vai vir qualquer dia desses. Qualquer dia desses, a gente vai sentir o que todo mundo sente.

E aí a ficha cai: e se eu não for igual aos outros? Será que mais alguém no mundo se sente da mesma forma? Porque a gente acha tudo lindo na teoria — até shippa casais fictícios, lê sobre eles, escreve sobre eles, sente um quentinho no coração de ver aquele relacionamento. Mas, quando é com a gente, a coisa muda de figura. A gente simplesmente não consegue sentir nada além de “acho que sou uma ótima atriz; talvez eu deva considerar mudar de profissão”.

E talvez a gente demore demais para descobrir os termos “arromântico” e “assexual”. Talvez a gente demore metade da vida para entender que não é egoísmo não cumprir as expectativas que uma sociedade inteira tem da gente. A gente demora metade de uma vida para entender que aquele cara escroto que achava inconcebível a gente não ter transado ainda, mesmo tendo 27 anos, é apenas fruto da mesma sociedade que ele tinha tanto orgulho em dizer que não fazia parte dele.

Essa é, basicamente, a história da minha vida.

Por isso, quando me deparei com uma breve descrição no Twitter sobre o livro Sem Amor, de Alice Oseman, CORRI para comprar. Fazia tempo que eu não ficava ansiosa para ler um lançamento da forma como fiquei para esse.

E, felizmente, a obra não me desapontou nem um pouco.

Nas 477 páginas, acompanhamos a vida de Georgia, uma adolescente de 18 anos que sabe TUDO sobre romance na teoria, mas, na prática, é um pouco diferente. Ela não consegue sentir nada por ninguém, apesar de se esforçar muito. Vai ver que funciona assim com todo mundo, né? Vai ver que ela só nunca soube que todo mundo se sente assim antes de se apaixonar de fato. 

É só depois de encontrar Sunil, presidente da sociedade LGBTQIA+ da faculdade, que Georgia descobre o que significa a letra A da sigla e tudo começa a fazer sentido.

Apesar de Georgia não me representar totalmente, pois me encaixo em outra categoria de assexualidade, a compreensão que ela vai tendo de si durante a história me abraçou de tal forma que, às vezes, eu só queria ir atrás da autora e agradecer pelo serviço público prestado. Sabe aquele livro que você tem vontade de sair distribuindo para todo mundo? Então, esse foi um desses para mim.

E não que eu tenha necessidade que as pessoas leiam tudo o que acho bom, mas eu tenho uma necessidade muito grande de ser aceita. Tenho uma necessidade muito grande de que parem de tentar me arranjar um par. Tenho uma necessidade muito grande de que parem de achar que eu não sou feliz porque o meu jeito de existir, sobreviver e viver é diferente do delas.

Hoje, aos 35 anos, sei que sou arromântica assexual. Sou como a Ellis, personagem que aparece por pouco tempo em Sem amor (e da qual gostaria de saber mais): fui apenas vivendo sem me dar rótulos, até que, um dia, descobri que me encaixava em alguns deles.

No entanto, tudo teria sido MUITO mais fácil se, como Georgia, eu tivesse descoberto isso aos 18 anos. Talvez o fardo que levo sobre os meus ombros tivessem sido um pouco mais leves.

Por isso, recomendo a leitura para todo mundo, mesmo para aqueles que já estão cientes de quem são ou que já sabem aceitar que cada ser humano é único. É uma leitura leve, engraçada e perfeita para passar o tempo sem nem perceber o que está acontecendo ao seu redor. Tem dramas e tramas adolescentes? É lógico, as protagonistas são dessa faixa etária indefinida entre a adolescência e a fase adulta. Porém, não é fator impeditivo de leitura e muito menos algo que desmerece a obra, muito pelo contrário. Esse livro merece — e merece muito — elogios e divulgação.

Obrigada, Alice Oseman, por me ajudar e por me compreender. E obrigada por disseminar a palavra da assexualidade e arromanticidade em um mundo que tenta nos invisibilizar a todo custo.


Publicação: Editora Rocco

Tradução: Laura Pohl

Onde encontrar: https://amzn.to/3f5QRTz

Mais sobre assexualidade: https://docs.google.com/document/d/1Xf1qp33SMTg-d2qgWt-7cclWRJV3-Glw5O8imM3YQVQ/edit

Mais sobre arromanticidade e assexualidade: https://aroaceiros.com/

Mais sobre arromanticidade: https://www.aromanticism.org/pt/perguntas-frequentes#oq-aro

Quadro de funcionários

Texto produzido em uma de minhas lives de escrita lá na Twitch. Não me lembro mais da prompt que o inspirou. O miniconto (?) foi editado para melhor compreensão.

Faz apenas 3 meses que ele entrou na empresa, mas já sabe que terá alguns obstáculos à frente se quiser chegar a algum lugar.

— Já fez o café, Jorginho?

Ele sorri com todos os dentes possíveis para o colega que fez a pergunta maldosa, mas por dentro ele está explodindo. Não quer ser visto como o secretário do chefe só porque faz seu trabalho direito. Mas é melhor não dizer nada. Aprendeu com a mãe que o melhor é sempre abaixar a cabeça e deixar que os outros lidem com a própria consciência quando ela pesar.

Mas será que a consciência de alguém ali pesa?

Em um escritório dominado por homens, ele já presenciou mais falas e atos machistas do que já havia vivenciado antes, e isso o faz pensar que não, ninguém ali tem consciência de nada.

Será que só ali ou em todas as empresas do mundo?

A bolha em que cresceu parece ser estourada bem aos poucos, como se ela fosse feita daquele material de colchões infláveis e cada pessoa que passasse por ele a furasse com uma agulha. Ele era cheio e, agora, está ficando murcho.

Jorge se ajeita na cadeira para voltar a digitar o relatório; o chefe o quer para às 10h e já são 9h30. Precisa correr.

— Aceita um pão de queijo, Jorginho?

O colega para à frente de sua mesa, um sorriso zombeteiro no rosto, mastigando de boca aberta como se fosse um homem das cavernas.

Ele quer gritar que seu nome é Jorge e que ninguém nunca o chamou de Jorginho antes.

Em vez disso, abre meio sorriso e volta seus olhos novamente para o computador para mostrar que está ocupado.

— Obrigado, César. Já tomei café da manhã.

César ri.

— Eu tô aqui pensando, cara. Nunca vi você fazendo nada que desviasse um tiquinho assim das regras que fosse. Isso tudo é amor pelo chefe?

As bochechas de Jorge queimam e ele tenta não olhar para César, que agora se debruça sobre o monitor do computador e deixa cair migalhas de pão de queijo sobre o teclado de Jorge.

— Aiiiii ficou vermelho! – César tira sarro mais uma vez – Será que eu tô certo, então? Cê é apaixonado pelo chefe, Jorginho?

Jorge congela os dedos sobre o teclado, esperando que com aquela simples ação César vá embora.

Mas, obviamente, não funciona.

Diz a si mesmo em pensamento: não vale a pena arranjar confusão. Ele provavelmente faz isso porque, algum dia, alguém fez isso com ele. É o ciclo do bullying e Jorge prefere ser a pessoa que quebra o ciclo.

Respira fundo. Olha novamente para César.

— César, desculpa não poder te dar atenção agora, cara, mas é que eu tenho que entregar esse relatório para o Carlos até às 10h. O cliente só me entregou os dados faltantes há 10 minutos, então tenho pouco tempo. Na hora do almoço a gente conversa, pode ser?

César dá outro riso zombeteiro.

— Tudo bem, puxa-saco. A gente se fala.

Pega uma caneta do porta-treco de Jorge – a única que está funcionando -, se vira e sai andando em direção à mesa de uma colega que, Jorge percebe, de repente fica tensa. Por um segundo, Jorge tem vontade de voltar a conversar com César para que ele deixe a pobre mulher em paz, mas sabe que não há nada que possa fazer.

Volta a digitar o mais rápido que pode e, às 9h59, consegue terminar o relatório.

Respira aliviado enquanto clica em “enviar” no e-mail com o relatório anexado.

Meio minuto se passa. O telefone ao lado do computador toca.

— Jorge – diz ele, com a voz mais profissional que consegue fazer depois do estresse da última meia hora.

— Jorge, Carlos aqui. Pode vir até a minha sala?

Fiz alguma merda, Jorge pensa.

Mesmo assim, a caminho da sala, consegue sorrir para os colegas que passam por ele e que o olham meio constrangidos.

Abre a porta e encontra Carlos sentado com um arquivo na mão. Reconhece o próprio nome estampado na primeira capa.

Carlos levanta os olhos e se ajeita na cadeira quando Jorge fecha a porta atrás de si.

Carlos começa a falar assim que Jorge se senta.

— Jorge, eu não gosto de enrolação e você sabe disso, então vou ser bem direto: a partir de hoje, você não faz mais parte do nosso quadro de funcionários.

Jorge fica tão espantado que sua maior reação é abrir um pouco a boca.

— Mas… – diz ele. O que ele quer mesmo é dizer que não tem sido nada além de um funcionário exemplar desde que chegou na empresa, mas mesmo agora as palavras lhe faltam. Deve haver algum motivo por trás da decisão do chefe.

Carlos respira um pouco antes de responder. O desconforto está no ar. Será que é isso que chamam de “o elefante na sala”?

— Jorge, você é um funcionário exemplar no sentido de seguir as regras. Chega antes do horário todos os dias, faz o café para que todos possam tomar, só faz uma hora de almoço, fica até mais tarde quando precisa terminar algo… Mas, sabe, toda essa passividade não faz bem para a carreira, entende? Precisamos de alguém mais assertivo, alguém que faça o cliente enviar os dados de que precisamos antes do prazo do envio do relatório, alguém que…

— Alguém que faça os outros passarem raiva para conseguirem o que querem.

A voz de Jorge é quase um sussurro.

— Talvez seja uma melhor maneira de descrever a situação, sim. Mas, olha, a sua bondade é louvável! Só queria que isso funcionasse com nossos clientes para não ter que despedi-lo.

Jorge assente e abaixa a cabeça. As lágrimas que cobrem seus olhos já não podem ser escondidas e não pode deixar que o chefe as veja.

Carlos continua:

— Pode arrumar suas coisas em paz. Quando estiver pronto, pode ir. O pessoal do RH vai te ligar para explicar a questão do desligamento e todos os trâmites necessários.

Jorge assente mais uma vez e se força a sorrir, ainda que as lágrimas ainda estejam ali, deixando seus olhos vermelhos por estarem aguentando tanta pressão.

Olha novamente para Carlos e estende a mão.

— Obrigado pela oportunidade, seu Carlos.

Carlos parece um pouco comovido ao retribuir o aperto de mão, mas Jorge não pode dizer mais se é isso mesmo ou se é apenas seu desejo de que isso seja verdade refletido no rosto do homem.

Jorge se vira e, antes de sair, ouve Carlos pegando o telefone para chamar César.

Ele sai da sala no mesmo momento em que o outro jovem se encaminha para ela. Será que hoje é dia de demissões gerais?

Volta para a mesa, desliga o computador e começa a empilhar seus poucos objetos dentro de um saco. Quando está terminando de arrumar tudo na mochila, a porta de Carlos se abre e de lá sai César, sorrindo como se fosse o dia mais feliz de sua vida.

Jorge põe a mochila nas costas e sai andando devagar, enquanto ouve Carlos na mesa de um outro colega:

— Fui promovido, cara!


Escrito em 13/09/2021

Chaminé abaixo

Interrompo a postagem em ordem cronológica para publicar um miniconto propício para a época, que escrevi na minha mais recente live de escrita na Twitch. Espero que seja uma boa leitura!

Uma mulher de 40 anos não deveria acreditar em Papai Noel, disso eu sei. Mas como eu poderia deixar de acreditar, entrando ele todas as noites do dia 25 de dezembro pela minha chaminé? No começo, achei estranho, mas depois me acostumei com as visitas. Começaram quando eu fiz 25 anos, pouco depois que fiz aquela viagem com os meninos para “encontrarmos quem verdadeiramente éramos”. Foi tanto chá de ayahuasca que eu confundi o Papai Noel com um alienígena.

Pois bem. No ano seguinte, ele veio de novo. Dessa vez, em vez de descer pela chaminé como no ano anterior, uma luz desceu sobre meu quarto antes de ele aparecer, mas eu havia ficado doente e não havia nada no meu sangue que pudesse demonstrar alucinação. Nem febre eu tinha!

Eu fiquei lá, feito uma estátua na cama, enquanto ele sorria um sorriso cheio de dentes para mim, com aquele saco nas costas como se eu fosse alguma criança. Em vez de descer e deixar o presente debaixo da árvore, deixou-o ao meu lado na cama e, da mesma forma que apareceu, desapareceu. A luz foi tão ofuscante que fiquei uns 3 minutos tentando recuperar minha visão novamente.

Já estava voltando a dormir quando um alarme soou bem perto de mim, e percebi que vinha de dentro da caixa, que agora se mexia como se minha cama fosse vibratória. Abri correndo, com medo de acordar os vizinhos, mas, lá dentro, não havia despertador. Na verdade, não havia nada. A caixa estava vazia.

Fiquei um tempo parada, olhando para ela, mas depois desencanei e voltei a dormir. Guardei-a no guarda-roupa só por via das dúvidas.

Hoje, então, será o dia de adicionar a 15ª caixa vazia à minha coleção. Nunca contei a ninguém sobre isso, nem nunca desconfiaram das minhas desculpas quando não queria passar a ceia de Natal na casa de alguém. Os namorados e namoradas que já foram íntimos o suficiente para abrir meu guarda-roupa às vezes me perguntaram sobre o fato de eu ter várias caixas iguais, mas eu sempre dizia que era para o caso de esquecer de comprar papel de presente. Nenhuma dessas pessoas nunca questionou o fato de não receberem presentes embrulhados nelas; provavelmente se sentiam até mais importantes por eu nunca esquecer de comprar papel de presente.

Ouço barulhos vindo da chaminé e olho no relógio: ele está um pouco atrasado, mas quem não se atrasa hoje em dia, né?

Os passos que ouço no corredor me fazem me mexer na cama, me arrumando para o grande encontro.

A porta se abre e, de repente, vejo uma rena me encarando. Ela está com os olhos vermelhos, mas não por conta do vento que enfrentou desde o Polo Norte. Dá para ver que ela já chorou muito.

Ela respira fundo e finalmente me diz:

— O Papai Noel morreu.

Ela desaba, como se eu tivesse tirado o chão de debaixo dos pés dela, caindo sobre as quatro patas e deitando como se não houvesse mais esperança para ela. O que eu devo fazer? Como se conforta uma rena? E que história é essa de o Papai Noel morrer?

Eu vou até ela e me sento ao seu lado, fazendo carinho em suas costas. Ela me olha agradecida e eu até tenho medo de estragar esse momento singelo, mas preciso saber:

— Como foi que ele morreu?

Ela soluça mais uma vez, limpa o focinho com uma das patas, depois tenta olhar para mim novamente.

— Atiraram nele!

Que horror! Se não têm respeito nem pelo Papai Noel, vão ter respeito por quem?

— E você sabe quem foi? — digo em uma voz baixa, ainda incrédula.

A rena balança a cabeça.

— Foi a roupa dele. Já tinha falado milhões de vezes pra ele se modernizar, tentar achar um azul, sei lá, ou até um preto; sabe que preto combina com tudo, né? Mas não. Ele insistiu a continuar a usar vermelho e branco, mesmo vindo para o Brasil.

Ela deita novamente a cabeça no chão enquanto eu de repente entendo tudo: foi aquela corja de extrema direita.

— Filhos da puta! — é tudo o que consigo responder.

Penso, então, na caixa que não vou receber. Será que, se eu não a abrisse dessa vez, a Esperança ainda estaria guardada? Pois, agora que penso nisso, passo a ter outra certeza: todas as caixas que abri nos últimos 15 anos foram caixas de Pandora. O Papai Noel só precisou morrer para que eu entendesse.

Rascunho sem título

O texto a seguir foi baseado em uma prompt de uma das minhas lives de escrita na Twitch. Era para ter saído um miniconto, mas acho que escrevi o começo de algo que não sei se quero continuar. Quem quiser ler mesmo assim, aqui está:


— Ele morreu para que desse certo, eu não entendo!

Teria sido um grito, mas como já gastara todas as suas forças chorando, a voz saiu mais próxima de um sussurro.

— Eu avisei que haveria consequências – disse o homem mais alto, irritado.

Roubar a ambulância havia sido fácil, o difícil mesmo tinha sido ver o homem já à beira da morte sendo expulso dela.

E por conta de quê?

Mais dinheiro público roubado para que ele pudesse alimentar a própria conta bancária.

O incrível, para ele, é que tenha demorado mais de 20 anos para chegar a ter qualquer tipo de remorso. O que será que deu nele?

Talvez o vírus da trouxice estivesse no ar e ele demorara a ser contaminado. Precisava de uma vacina urgentemente!

Percebeu que, enquanto pensava, o homem alto deixara de lhe fazer companhia; um claro recado: o jogo ainda não terminara, não importava quem havia morrido.

Pôs-se a correr, saindo do cemitério como se estivesse indo salvar a vida de alguém. Pensando bem, era exatamente esse ato antes impensável que estava prestes a acontecer.

Pois, se ele salvasse a vida do governador, este teria como confirmar seu álibi. Ninguém mais de sua família precisaria morrer.

Era só impedir que a bomba explodisse.

Era só ninguém do prédio ter assistido ao jornal da noite passada.

Ele tinha 4 minutos.

O clima e os humores

Texto originalmente produzido em uma das minhas lives de escrita na Twitch. Apenas algumas palavras/posições de palavras foram alteradas para a publicação aqui.


Prompt: descreva como a temperatura/o clima afeta seu humor.


Frio. Milhões de roupas para manter o calor do corpo, meias e pantufas nos pés, cabelos nunca presos, mesmo nos piores dias. O frio: cinzento, opaco, mostrando sua vida apenas por meio das gotículas mínimas da garoa que só servem mesmo para molhar. O nariz reclama, chora, fica vermelho de tanto espernear. O quarto se lamenta por ser o único cômodo da casa que não vê luz natural.

As gatas só querem dormir; as camas usam essa desculpa para ficarem desarrumadas o dia todo. O cinzento de fora atinge o cinzento de dentro e, juntos, eles podem fazer escuridão; há de se tomar muito cuidado.

Ao fim do dia, no entanto, o frio se transforma em conforto devido à eletricidade do chuveiro, ao pijama flanelado, à televisão ligada no programa favorito, e ao chocolate. No frio, apenas o chocolate é quente.


Calor. Alegria. Acompanho o raiar do dia. Mãos à obra às 6h30 sem nada de preguiça.

Ajuda que o quarto nunca vê a luz do astro principal do verão.

Derreto mais na cozinha, o banho tem de ser gelado, o sono tem de acontecer com o corpo pelado.

Quanto às gatas, continuam só querendo dormir.

“Ai, que calor do inferno!”

O calor se torna mais quente toda vez que alguém reclama. E como reclamam!

Mas o sol ilumina mais, alimenta mais, faz querer mais.

Mais praia, mais mar, mais sol para ter mais praia e mais mar.

Na falta do mar, a piscina.

Na falta da piscina, banho de mangueira.

No calor, todos querem lavar a louça.

No calor, o amarelo de fora encontra-se com o amarelo de dentro e, juntos, parecem um girassol.

Um girassol que gira, gira e gira.

Um girassol que só morre quando bate a frente fria.

Começo de setembro de 2021

A verdade está no quarto

[Conto originalmente escrito como exercício em uma de minhas lives de escrita lá na Twitch. Editado para melhor compreensão (ou não)].

Prompt: Comece o texto com a frase “Ele se manteve completamente parado à medida que os passos ficavam mais altos.”


Ele se manteve completamente parado à medida que os passos ficavam mais altos. Xingou em pensamento a lei de Murphy. É óbvio que bastaria ele tomar a decisão para que algo assim acontecesse!

Segurou a respiração, como se isso fosse impedir que a porta que agora estava sendo aberta batesse nele. Ele até já previa os próximos momentos: a porta batendo em sua barriga protuberante, o grito da mulher, a polícia chegando, ele sendo levado naquele camburão no qual já havia entrado tantas vezes antes. Havia jurado que nunca mais passaria por essa vergonha, pela humilhação de passar em frente aos vizinhos que antes o julgavam bom demais para sequer ser questionado pela polícia e que, agora, atravessavam a rua quando o viam. Não adiantava explicar que era por uma boa causa.

Ninguém via o que estava acontecendo, mas ele via. Ele sempre tivera essa espécie de sexto sentido para energias malignas, uma explicação certeira para tudo o que havia de errado no mundo. Era uma pena que nunca conseguira provar, principalmente por ser azarado demais, desastrado demais.

Passou as mãos ao redor do corpo e protegeu a barriga, esperando o impacto. Aliás, por que a porta ainda não o atingira? Percebeu que, enquanto se perdia em pensamentos, quem quer que estivesse entrando mudara de ideia no meio do caminho. Mas por quê?

“Estou aqui pelo mesmo motivo que você”, disse uma voz em sua cabeça.

Ele riu em pensamento.

“Ah, então você também está grávido de um ser do espaço e ninguém acredita em você?”

Não houve resposta e ele considerou a hipótese de realmente não estar em controle de suas faculdades mentais. Afinal, aceitara fácil demais alguém falando com ele por meio de telepatia.

Sentiu uma pontada na barriga: um chute de dentro para fora. Já estava acostumado com as mexidas esquisitas, as acrobacias que a criança híbrida fazia dentro dele, mas nunca havia sido tão forte. Sentou-se para tentar aliviar a dor e, quem sabe, convencer o parasita dentro de si de que não era uma boa hora para demonstrar mais uma de suas habilidades. A cabeça latejou um pouco enquanto ele esticava as pernas, depois doeu como se alguém tivesse cravado algo muito pontudo nela.

“Não precisa ter medo, deixe a dor te levar” – era a voz novamente.

A tontura veio enquanto ele tentava balbuciar, dessa vez em voz alta:

“Ela é a responsável… no quarto há provas.”

“Ah, sim, há muitas provas”, disse a voz em sua cabeça novamente.

E, então, ele apagou.

Quando acordou, seu primeiro instinto foi levar uma das mãos à barriga. A surpresa foi grande quando sentiu que o abdômen estava tão reto quanto estivera antes de a mulher que se apresentara como Márcia aparecer em sua vida. A surpresa foi maior ainda quando ele levantou os olhos e viu que Márcia estava em pé, em frente a ele, com os braços cruzados e um sorriso maligno no rosto.

30/08/2021

De volta para os anos 80

Pequenas resenhas dos meus minicontos favoritos

De volta para os anos 80 é uma coletânea de 35 minicontos escritos pelos alunos do curso Formação de Escritores da Metamorfose, que, como o título deixa claro, tratam de algum assunto relacionado aos anos 1980. Já fiz um post no meu Instagram sobre o livro, mas achei que os meus favoritos mereciam um pouco mais de espaço. Portanto, abaixo estão minhas considerações sobre cada um desses títulos:

Funcionário padrão

Ana Helena Reis

A inflação da época do governo Sarney é o grande tema deste conto, que se passa dentro de um supermercado enquanto as mulheres tentam fazer a compra do mês. O grande vilão aqui é o funcionário do título, que vem com sua maquininha de remarcar preços, a todo vapor, em direção às mercadorias. O conto de Ana Helena Reis me fez pensar sobre os pontos de vista e sobre o que temos de fazer para simplesmente sobreviver. Existe alguém errado nessa história toda além do próprio governo?

Além do infinito

Camila Beltran

Quem nunca quis ser paquita da Xuxa que atire a primeira pedra. Ou, pelo menos, que atire a primeira pedra quem nunca sonhou que sua cartinha tivesse a sorte de cair nas mãos da apresentadora, dentre as milhares que ela jogava para o alto. O conto de Camila Beltran nos transporta vividamente para a atmosfera desses sonhos, descrevendo as calças fuseau e a disputa pela televisão. Além disso, há um tópico sobre o qual eu nunca havia pensado até ler o conto, talvez por nunca ter, de fato, achado que poderia me tornar paquita: as escolhidas eram sempre brancas e loiras. Fiquei alguns dias pensando nessa história não só pela nostalgia, mas também por conta dos sonhos que ficaram pelo caminho por terem apenas a ver com uma sociedade racista.

Até quando?

Flávia Longhi

O conto de Flávia Longhi é curto e forte, uma narrativa sobre a tortura que muitos dizem não ter existido. O relato é feito em primeira pessoa e as falas das outras pessoas envolvidas são bem construídas. Sentimos o choque de cada uma delas. A reflexão é justamente o título: até quando?

Voo

Leney Veloso

Talvez o meu conto favorito desta coletânea. Eu sou apaixonada por histórias narradas do ponto de vista de personagens não-humanos, e Leney soube trazer um carrinho de rolimã à vida de uma forma muito gostosa e tocante. Senti até o vento levantando meus cabelos.

Não identificado

Luiz negrão

Como boa amante da vida extraterrestre fictícia, este conto parece ter sido escrito para mim. Luiz Negrão conta a história de uma esposa que está preocupada com seu marido, capitão da Força Aérea, que voltou do trabalho e não acordou mais. A tensão é construída de uma forma bem fluida e quase fantástica, levando ao meu tipo preferido de final: aquele em que tudo é revelado na última frase. Mulder certamente adoraria investigar este caso.

Em chamas

Marina González

Uma espécie de retrato de Porto Alegre e alguns de seus habitantes, Em chamas narra os pensamentos e ações de uma mulher escritora durante um incêndio no prédio em que mora. A pitada de humor que Marina coloca em suas palavras é o ponto alto da história, já que, sim, eu também salvaria meus manuscritos e, não, também nunca entendi por que as mulheres colocavam collant por cima dos shorts para as aulas de aeróbica. Há ainda algo de profundo na reflexão final, que traz à tona a boa e velha pergunta: se eu morresse hoje, morreria satisfeita com o que fiz ou deixei de fazer?

Subversão

Rosane Rommel Cardoso

Este conto é o que parece pelo título e, ao mesmo tempo, não. Por meio de uma metáfora muito incrível, um pai responde à pergunta de sua filha sobre o que aconteceu com sua mãe. É a história de um jardim e também a história da História. A escolha de palavras foi certeira para evocar imagens e sentimentos.

No vale da morte

Sarah Alves

Um taxista está à espera de um passageiro e reflete sobre o lugar onde mora em 1984 – o chamado “vale da morte”. A tensão é construída a partir do momento em que um passageiro entra e pede para ser levado até à Vila Socó, palco de um incêndio sem precedentes (e que pode ser inferido pelo texto, mesmo que a pessoa que lê não conheça os fatos da tragédia). A atmosfera sombria que se assemelha à de filmes dos anos 80 é o destaque deste conto.

A fugitiva

Valéria Machado

Um conto sobre sonhos e a vontade imensa de realizá-los. Uma história que poderia ser como a de qualquer adolescente, mas com um fator que me deixou com um quentinho no coração. Às vezes, ter possibilidades de fins é muito melhor do que finais totalmente fechados.


Caso tenha interesse em ler este livro também, ele pode ser encontrado no site da editora ou com os autores. Recomendo a Marina González ;).

Luz em meio ao caos

Estamos vivendo em um universo paralelo, isso é um fato. Em algum momento, atravessamos alguma barreira invisível enquanto a Terra girava e acabamos em um lugar onde não pertencemos. Sabe esse monte de gente antivacina e bolsonarista? Então, essas pessoas são parte deste universo novo; as pessoas do nosso mundo ficaram lá no nosso mundo original, criando uma outra linha do tempo.

Esta é a minha explicação fantasiosa para toda a falta de humanidade porque só a ficção consegue me impedir de querer dormir até que as coisas estejam resolvidas; só a ficção me faz abrir os olhos de manhã e falar: tá ruim, mas ficar deitada só vai fazer piorar.

E, bom, na ficção eu conheci Monica Reyes que, além de me trazer amigos para a vida, também me apresentou à pessoa que a interpretava. Sabe uma pessoa cheia de luz? Essa é Annabeth Gish. E é bem fácil falar quando estamos separadas por uma tela, uma distância territorial gigante e vidas completamente distintas. Muitas pessoas me dizem que preferem não conhecer seus ídolos para não desfazerem a ideia perfeita que fazem deles, mas eu sou adepta do “VEM CÁ ME DAR UM ABRAÇO”. Não é segredo para ninguém que eu já viajei muito (e comi muita salada de mercado) apenas para conhecer pessoas que me inspiram. O interessante é que, desde 2001, nunca tive a oportunidade de conhecer Annabeth Gish. O sonho foi sempre ficando para depois para que outras coisas pudessem ser concretizadas.

E que estranho é o fato de que justamente na época em que abraçar pode custar uma vida esse sonho tenha se realizado em partes. Uma Comic Con online, um chat de dois minutos que se transformaram em quatro, um pacto: você mostra os seus escritos para o mundo que eu vou fazer o mesmo. O começo de uma percepção: eu posso, eu consigo, eu vou atrás.

Desde então, entrei para um grupo de escritores, enviei dois contos para editais, publiquei meus textos mais curtos no Instagram e até declamei dois dos meus próprios poemas sem ter vergonha. Eu também criei uma campanha de apoio ao meu trabalho e uma categoria dentro dela em que as pessoas têm um texto meu como recompensa. Quem diria que esta seria a categoria na qual tenho mais apoiadores? Uma conversa de quatro minutos com uma pessoa cheia de luz me fez dar um passo enorme em meio a um limbo de depressão e de dias cinzentos, me fez enfrentar os meus dias mais difíceis apenas dizendo palavras de incentivo.

E, então, pulamos para maio do ano seguinte, um ano em que a humanidade parece estar sendo vencida por aqueles seres do universo paralelo onde viemos parar, um ano em que viver cada dia sem uma crise de pânico é uma vitória. Neste ano, Annabeth participa de um painel na mesma Comic Con, mas, desta vez, falando sobre seu papel em outra série. Uma pergunta vem de uma fã para o elenco de tal série: se vocês fossem fantasmas, como vocês assombrariam as pessoas? A resposta de Annabeth? Que ela seria um fantasma do bem, que ela cochicharia no ouvido das pessoas palavras de incentivo quando elas estivessem passando por momentos difíceis. Eu seguro as lágrimas.

Seguro até o momento em que Annabeth aparece novamente na minha tela ao vivo, empolgadamente me dando oi com ares de reconhecimento. E, então, eu digo a ela: você é o meu fantasma do bem da vida real. Ela quer que eu repita como forma de incentivo para ela também. A gente conversa, mas também é cortada pelo cara chato da Comic Con que não deixou que os dois minutos fossem mais que isso. Fiquei sem screenshot bonitinho e provavelmente não vai ter nenhum momento no vídeo em que as duas estão sorrindo para a câmera para que eu mesma possa tirar esse screenshot. Mas teve uma promessa dela de continuarmos a conversa no Instagram para que minha pergunta não ficasse sem resposta. Teve um “estou muito orgulhosa de você” e também teve um “antes de qualquer coisa, eu preciso falar: seu cabelo é maravilhoso!”. Teve uma humanidade da qual eu estava sentindo falta.

Neste mundo virtual em que todos se acham celebridades, quem responde a comentários é visto como uma pessoa diferente e quem retribui o carinho que recebe é visto como excepcional (ainda me assusto de pensar que uma vez perguntei nos meus stories o que as pessoas achavam que era o meu diferencial como produtora de conteúdo e a grande maioria respondeu: você conversa com a gente), em um mundo louco como esse, quando encontramos pessoas como Annabeth é como um abraço quentinho, um alento, uma nesga de esperança. É como encontrar o ser humano da Terra em que deveríamos estar.

Por um mundo com mais pessoas como ela. Por um mundo em que possamos ser inspirações uns dos outros. Por um mundo com pessoas que se lembrem como ser pessoas.

Indicados ao Oscar 2021– filmes baseados em livros

Todo ano é a mesma história: me proponho a ver todos os filmes indicados ao Oscar e, depois, me esqueço completamente.

Este ano foi um pouco diferente, graças a uma alma caridosa no Instagram que compilou em um template todos os filmes, curtas e documentários indicados para a 93ª edição da premiação. Com isso, consegui assistir (até agora) 30 dos títulos desta lista. Um recorde de uma vida inteira.

Como vários desses filmes são adaptações de livros, decidi trazer para vocês uma lista com 6 dos filmes desta “subseleção” de que mais gostei. São eles:

Era uma vez um sonho

Título original: Hillbilly Elegy

Indicado ao Oscar nas categorias de melhor atriz coadjuvante (Glenn Close) e maquiagem e cabelo. (Cadê a indicação da Amy Adams, gente??)

Baseado no livro homônimo de J.D. Vance, o filme conta a história de uma família desajustada, onde todos têm muitos sonhos, mas também muitos obstáculos pelo caminho. O filme me deixou pensativa sobre os caminhos que escolhemos seguir e até que ponto podemos escolher as pessoas que amamos em detrimento de nós mesmos. Recomendo muitíssimo!

O filme pode ser assistido na Netflix e o livro está disponível em capa comum e e-book (também incluso na assinatura do Kindle Unlimited, que está de volta com a promoção de R$ 1,99 por três meses).


O céu da meia-noite

Título original: The Midnight Sky

Indicado ao Oscar na categoria de efeitos visuais.

Baseado no livro Good Morning, Midnight, de Lily Brooks-Dalton, O céu da meia-noite conta a história de um cientista que escolhe ficar para trás enquanto os últimos seres humanos deixam a Terra, que já atingiu seu ponto máximo de destruição. A história muda de rumo quando o personagem interpretado por George Clooney descobre que não é a única pessoa que foi deixada para trás. Em paralelo, acompanhamos a jornada de um grupo que está tentando voltar à Terra com suas descobertas sobre um planeta que pode ser um novo lar para os seres humanos, até que perdem a comunicação com a Terra e começam a desconfiar que há algo terrivelmente errado.

Eu ouvi o livro de Brooks-Dalton na época em que ele foi lançado, em inglês, e gostei muito, mas me lembro de ter ficado um pouco decepcionada com a divulgação como ficção científica quando, na minha opinião, o livro está mais para um drama. Apesar de o mesmo acontecer com o filme, por ter ido sabendo o que esperar, consegui amar absolutamente tudo da versão cinematográfica.

O filme pode ser assistido na Netflix. Já o livro, encontra-se em pré-venda tanto na Amazon quanto no site da editora Morro Branco.


Emma

Título original: Emma

Indicado ao Oscar nas categorias de figurino e maquiagem e cabelo.

Está aí uma grande surpresa para mim. Tentei ler a obra tão aclamada de Jane Austen e desisti depois da página 10. Logo, fui sem expectativas para o filme, que só assisti mesmo porque está na lista de indicados (e porque minha irmã está no período de gratuidade do Telecine Play). A história da moça irritante que quer casar todos ao seu redor me cativou de uma forma muito peculiar. Fiquei pensando no quanto uma mulher ser segura de si é visto como arrogância, enquanto o mesmo não se aplica a um homem, além de ter ficado extremamente maravilhada por todos os cenários do filme, até mesmo quando o cenário era uma loja de lãs e linhas. Uma história gostosa, perfeita para aqueles dias em que só queremos paz.

O filme pode ser assistido no Telecine Play e o livro pode ser encontrado em suas diversas edições aqui.


O grande Ivan

Título original: The One and Only Ivan

Indicado ao Oscar na categoria de efeitos visuais.

Eu sou dessas que não se emocionam muito com filmes, a não ser que eles envolvam animais. Logo, já cliquei em “reproduzir” com medo de ficar traumatizada. O trauma não veio, ainda bem, mas fui dormir chorando.

O filme conta a história do gorila chamado Ivan, conhecido por ser a atração principal de um circo. Com a chegada de um filhote de elefante para a família circense, Ivan percebe que a vida dentro de uma jaula não é exatamente uma vida plena e, com a ajuda de uma garotinha fofíssima, começa a tomar uma atitude para mudar sua situação e a de seus amigos. O filme é baseado em um livro infantil de mesmo nome da autora Katherine Applegate que, por sua vez, é baseado em uma história real. A parte da história real foi o que me fez ir dormir chorando. Mas não se assuste – o filme também conta com muitos momentos fofos e engraçados. Vale a pena!

O longa pode ser assistido na plataforma Disney+ (dica: clientes Vivo têm 30 dias grátis) e o livro pode ser encontrado aqui.


Rosa e Momo

Título original: La vita davanti a sé

Indicado ao Oscar na categoria de canção original, com a música Io sì. (Escrita por Diane Warren, com versão e interpretação de Laura Pausini).

Eu fiquei sabendo que este filme existia enquanto assistia à premiação do Globo de Ouro porque, de repente, minha italianinha favorita ganhou um prêmio ao qual eu nem sabia que ela estava concorrendo. Fora isso, meu conhecimento sobre a obra era nulo.

Sophia Loren interpreta uma mulher judia sobrevivente do holocausto que se vê “obrigada” a cuidar de um órfão de 12 anos não muito bem encaminhado na vida. O menino faz pequenos trabalhos como traficante de drogas, furta, e é o pré-adolescente mais chato do planeta (o que me fez aplaudir de pé a atuação de Ibrahima Gueye; há tempos não sentia tanta irritação com um personagem quanto senti no começo deste filme). A história pode ser bem previsível a partir daí, mas não deixa de ser emocionante por isso. Desta lista toda, talvez tenha sido o que mais gostei.

Rosa e Momo é uma adaptação do livro A vida pela frente, de Romain Gary, escrito sob o pseudônimo de Émile Ajar. Já tinha visto o livro por aí, mas nunca iria imaginar que o filme tinha algo a ver com ele. Agora vou precisar ler, obviamente.

O filme está disponível na Netflix e o livro pode ser encontrado na Amazon ou na loja da editora Todavia.


Relatos do mundo

Título original: News of the World

Indicado ao Oscar nas categorias de melhor trilha sonora, melhor som, melhor fotografia e melhor design de produção.

Baseado no livro homônimo de Paulette Jiles, o filme conta a história de um veterano de guerra que ganha a vida indo de cidade em cidade lendo as notícias dos jornais para a população. Em uma de suas passagens, o personagem interpretado por Tom Hanks encontra uma criança que não fala a língua dele e que perdeu duas famílias em tão pouco tempo de vida. O veterano, então, faz de sua missão levar a pequena até seus únicos parentes vivos. Acompanhamos a cumplicidade que nasce entre os dois e os obstáculos que têm de enfrentar até chegarem ao seu destino. Apesar de um pouco previsível, não é aquele tipo de previsibilidade ruim, mas sim daquele tipo que torcemos para que aconteça. Um filme amorzinho demais e que reforça algo que não posso dizer para não estragar a experiência de vocês.

O filme também está disponível na Netflix e o livro está em pré-venda na Amazon.

Ufa! Finalmente acabou! Há alguns outros que também são baseados em livros, mas escolhi falar dos meus favoritos para que esta lista não ficasse intoleravelmente gigante. Espero que tenham gostado!