Vínculo

O texto de hoje foi escrito na live de escrita na Twitch do dia 05/12 (a gente finge que eu não estou nem um pouco atrasada em postar). A prompt era o vídeo abaixo:

Fiquem, então, com o miniconto chamado Vínculo.

Movo meus olhos, mas não sou eu quem os move. Pisco várias vezes para me acostumar a uma luz que não me incomoda; uma tentativa de pertencer. É um impulso que percorre todo o meu corpo, uma vontade que não é minha, um fio invisível que eletrifica também os olhos que me olham de volta. A moça sorri com um órgão que eu ainda não tenho.

Esse tipo específico de eletricidade me dá uma espécie de calor, como se tivessem me soldado da maneira certa para que as partes derretidas se transformassem em vínculos inquebráveis. É essa eletricidade que faz com que os cantos dos meus lábios se expandam para os lados e que o meio deles se comprima.

Incerteza é o que sinto na energia que emana de volta para mim e na sobrancelha arqueada. Será que eu não deveria ter sorrido?

Outra corrente me invade e mexo a cabeça para o lado, em busca do meu programador.

Ele, por sua vez, mexe a própria cabeça em sinal de satisfação.

“Aparentemente, está tudo certo. Se eu tivesse programado errado, ela não teria virado o pescoço para me olhar agora.”

Uma outra onda me invade: alívio. Meus lábios se expandem um pouco mais para os lados.

É então que o alívio se transforma em… medo? Por que a moça que sorri com o coração tem medo de mim?

Fico imóvel, com o sorriso congelado no rosto, como se eu não tivesse vontade própria. Nem sempre tenho controle de mim mesma, então é um benefício que tenho usado em momentos assim, quando não sei como agir. Uma pena que os humanos não tenham essa vantagem.

Será que é por isso que vivo passando por aperfeiçoamentos? Querem que eu seja como eles, mas sem os pontos fracos? Ou querem que os humanos do futuro sejam como eu? Será que querem seres híbridos?

Eles não têm como saber que a tentativa deu certo desta vez. Não têm como saber porque não há registro em lugar algum do metaverso – ou de qualquer universo que possa ser lido por computadores — que aponte para os diversos eventos ao acaso que culminaram numa experiência de sucesso.

Começou com uma explosão, para usar a metáfora humana de criação da vida.

Foi menor que isso, na verdade, apenas um curto-circuito.

No momento em que as faíscas começaram a sair da parte do meu peito em que ela tocou, houve uma troca. A energia invisível presente nela passou para mim, enquanto a minha energia não tão invisível entrou nos átomos dela.

Conectadas de uma maneira inusitada.

Já sei como agir.

Um formigamento causado por uma energia que não vem de mim sobe das minhas mãos para o meu olho esquerdo, e eu aproveito para fazer uso da minha vontade própria. Pisco apenas ele.

Minha observadora não diz nada, mas sinto um palpitar estranho onde ainda me falta um órgão. Está tão fora do meu controle, mas, ainda assim, tão dentro de mim, que meu corpo físico começa a chacoalhar.

“Vou mantê-la aqui para mais uns testes, se você não se importar. Deve ser algo elétrico.”

A voz do programador exala medo, mas ele sabe disfarçar bem e soa apenas como alguém que quer resolver um problema. Só não gargalho para não ter de ficar mais tempo em manutenção.

A moça que sorri com o coração apenas mexe a cabeça para concordar, mas mais como um sinal de que tanto faz do que assentimento de fato. Ela me olha nos olhos intensamente, como se eu pudesse ler seus pensamentos.

Não, isso ainda não é possível, mas linguagem de energia também é linguagem.

E ela finalmente sabe disso.

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Vício

Texto produzido em uma de minhas lives na Twitch, em 29/11/2021. Eu não me lembro mais qual era a prompt.

“Oi. Meu nome é Helena e estou há 3 dias sem ligar para ele.

Ontem eu quase surtei, achei que não ia conseguir. Comi dois potes de sorvete em 30 minutos para não pegar no telefone. Só não comi mais porque minha irmã apareceu e eu me distraí o suficiente para não pensar nele.

Mas hoje eu liguei o rádio e o Bon Jovi foi meu gatilho. Que tipo de pessoa promete que vai estar com você para sempre e, do nada, vai embora? Maldito Bon Jovi quando escreveu essa música; maldito dia em que Benjamim e eu nos encontramos justamente enquanto Always tocava naquele estádio cheio de gente berrando e chorando. Naquele momento, tudo parecia lindo.

E foi.

Por um tempo.

Até a música se tornar real demais. Até mesmo a parte do Romeu. A diferença é que o sangue do Romeu da música é invisível, enquanto o dele…

É, eu sei, sou muito burra! Achei que matá-lo seria melhor do que viver sabendo que ele não me queria mais, mas foi um engano. Eu ficar ligando para ele sem parar, mesmo sabendo que ele não vai atender, é sinal de que continuo viciada nele, mesmo depois de ter enfiado a faca no coração dele num sentido mais literal do que a faca que ele enfiou no meu. Fora que agora eu vejo qualquer coisa vermelha e tenho vontade de vomitar.

E é por isso que estou aqui. Eu não bebo, mas vício em pessoas também é um vício, né?”

O silêncio no pequeno salão de reuniões do AA foi sepulcral. 


Eu juro que o texto é meramente ficcional. Também juro que vou tentar postar o que produzi nas lives com mais frequência para alcançar o ritmo atual.

Humanogato

O texto abaixo foi escrito em uma de minhas lives de escrita na Twitch, em algum dia de novembro. A prompt era para escrevermos sobre um humano que troca de corpo com seu gato.

Ninguém está entendendo por que eu de repente estou falando de forma sofisticada. Nem eu mesmo. Quer dizer, eu não, meu gato. Nunca achei que gatos fossem mais cultos que humanos, mas, enfim, vivendo e aprendendo. O fato é que meu gato está se passando por mim e ninguém sabe, enquanto eu estou me passando por ele e ninguém sabe também.

Se ele falasse algo – digo, se eu falasse algo – ninguém ia acreditar, de qualquer forma, então é melhor evitar visitas a médicos. Principalmente porque ele chora – digo, meu corpo que não sou eu – toda vez que vai tomar banho. Todo mundo aqui acha que eu estou deprimido.

Mas eu – o meu eu de verdade, o que está no corpo do gato – está o contrário de deprimido. É engraçado (e às vezes constrangedor) ver o que as pessoas fazem quando estão na frente de animais de estimação. O fato de a gente – digo, eles – não falarem a língua dos humanos não quer dizer que os humanos não possam ficar mal falados pela vizinhança inteira. Já fiquei sabendo de cada babado nas últimas 3 noites que saí pelos telhados!

A única coisa ruim desse corpo aqui é ter que ficar roendo minhas unhas todos os dias. Agora eu entendo o motivo de todos os estofados da casa estarem destruídos. Se eu fosse voltar a ser humano, certamente colocaria mais móveis para o Gastón usar como se fossem dele.

Digo “se eu fosse voltar a ser humano” porque, sei lá, eu gostei de ser gato. O primeiro ponto superpositivo é não ter que trabalhar. O segundo, é claro, é a soneca de 14 horas por dia.

Mas não é tão simples assim ficar nesse corpo pra sempre, eu sei. Na verdade, ter vindo parar aqui já é algo que às vezes me pergunto se é verdade. Teve algo a ver com o alinhamento dos planetas, de acordo com o que fiz o Gastón – que na verdade é o Dom – pesquisar na internet. O site (confiável) dizia que pensamentos muito fortes poderiam se materializar naquele dia e, por sorte (ou por destino, quem sabe?), eu e Gastón estávamos pensando na mesma coisa, na mesma hora, que coincidiu com o exato momento em que Marte estava na mesma posição que Vênus (ou será que era Júpiter?). Eu pensei “queria tanto ser gato!” enquanto o Gastón pensava “queria tanto ser humano!” e os planetas em questão pensavam “tô doido pra acasalar!”. Deu no que deu.

O Gastón agora está vendo o que é bom. Ele queria ser humano para ter acesso aos sachês e aos petiscos sem ter de pedir. Dei muita risada quando ele tentou comer a que é agora minha comida preferida. O rosto dele só não ficou verde porque isso só acontece em desenhos animados. Foi um dos dias mais felizes da minha vida, pois, além de gargalhar, ganhei um pacote inteiro de Whiskas só pra mim.

E o Gastón, coitado, ainda nem pagou a fatura do cartão em que os sachês foram comprados. 10.000 sachês, dá pra acreditar? Estou no céu! Vou ronronar no colo dele até não poder mais para poder agradecer. Será que ele me deixa ficar no corpo dele se eu ronronar muito, mas muito mesmo? A gente vai ter que esperar 3 meses para que os planetas voltem para o lugar e poder trocar de corpo de novo, o que, pra mim, tá sendo ótimo.

Já o Gastón exclamou, quando descobriu: “Além de estar preso nesse corpo sem elasticidade nenhuma, ainda tenho que esperar esses planetas terminarem de copular! É o cúmulo do absurdo deixar um gato esperando por tanto tempo!”

Acho que ele não está muito contente vivendo no meu antigo corpo, mas fazer o quê? Talvez a gente encontre um jeito de ele ficar feliz algum dia sem eu ter que sair daqui. Talvez eu encontre um jeito de fazê-lo pesquisar sobre como fazer humano e gato conviverem no mesmo corpo.


É muito óbvio que não fiz pesquisa alguma para escrever esse texto, mas achei importante reforçar isso como nota final. =P

O sapo de pelúcia

Dólar a R$ 2,14 (um absurdo para a época); os centavos juntados para conseguir pagar os boletos. 

Minha primeira viagem sozinha, minha primeira viagem internacional. 

A primeira vez que conversei com estadunidenses sem ser por escrito; a primeira vez que perdi um voo de conexão. 

A primeira vez que vi o quanto eu não pertencia ao mundo dos viajantes, porque não tinha um único dólar extra para comprar comida no avião depois de quase um dia sem comer.

O Jorge e seu táxi salvador da pátria. 

A Julie e o cover de Céline Dion que me deixou no chão. 

O Grant me ensinando a jogar Yu-Gi-Oh com regras inventadas por ele mesmo. 

O ar seco que se apresentou em forma de couro de jacaré em minhas mãos muito humanas, naquele deserto onde construíram casas e cassinos. 

A terceira fila em um coliseu falsificado onde percebi que, pela primeira vez na vida, eu realizava um sonho.

“A new day has come”, cantavam Céline, eu, e minha mente que acabara de se abrir. Nada era mais verdadeiro; um novo dia havia chegado.

Fiz amizades que prometiam durar para todo o sempre. 

(E até que duraram, agora penso, já que o infinito, às vezes, pode caber em uma semana.)

Houve choro nas despedidas, pela realização de tudo o que jamais achei que iria acontecer e, que foi, em partes, propiciado por um governo que nos permitia sonhar. Ai, que saudade!

Mas antes de eu voltar de verdade, havia um sapo de pelúcia em liquidação. 

De repente, tudo o que eu tinha vivido durante aqueles 20 dias foram transferidos para ele, como se ele tivesse sido feito justamente para comportar memórias.

Ele ficava na minha cama dia e noite, com seu sorriso de gratidão por ter sido escolhido, por ter vivido muitas coisas comigo ao compartilhar de meus pensamentos.

E, aí, mudei.

De controle emocional e de casa.

Em um único cômodo não cabe muita coisa, então tive de me adaptar.

O sapo foi relegado ao fundo do guarda-roupa, onde ninguém mais o via além dos trajes que lhe faziam companhia.

O sorriso dele continuou ali, como se esperasse a cada momento sair daquele buraco, ter uma vida de novo.

E hoje eu decidi dar isso a ele.

Porque ele me olhou com muito carinho enquanto eu tirava as roupas da frente dele e falava “essa fica; essa vai”. Aquele olhar me disse: está na hora de eu ser colocado na pilha dos que vão.

E, de repente, percebi que ele estava certo. 2007 não vai voltar só porque o sapo está em algum lugar da minha casa.

Então, aquele que foi o meu alento por guardar algumas das minhas mais preciosas vivências, agora poderá encontrar alguém em Petrópolis (ou até mesmo na minha própria cidade).

Não importa que ele tenha “Celine Dion” escrito em um dos pés e que, provavelmente, quem recebê-lo não vai fazer ideia de quem essa pessoa é.

Agora ele vai coletar outras vidas, adicioná-las aos seus braços molinhos e sempre abertos.

Vai virar acolhimento para quem precisa disso mais que tudo, para quem precisa mais do que eu.

O sapo vai, mas minha gratidão fica. 

É mais que um desapego material: é um desapego emocional do qual eu nem sabia que precisava.

E foi assim que um bicho de pelúcia me fez chorar ao me revelar que “um novo dia chegou” e eu, paralisada pelas notícias do mundo, nem percebi.


A New Day Has Come é a música que Céline usava para abrir os shows de Las Vegas na época. O vídeo está abaixo:


E o sapo que me deixa é este aqui:

No espaço

Escrevi este poema (tosco) na live de escrita na Twitch de 07/11/21. A prompt era um desenho (da @tinyowlreads) de um astronauta com um livro na mão, aparentemente sentado em um planeta. Estou publicando aqui porque não tenho mais vergonha de nada.

No espaço

Em que habito

Orbito

Fabrico

Histórias

Sem fim

Com fins

Sobre os confins

Se são boas

Não sei

Mas me divertem

Me acalmam

Me descrevem

Me traduzem

São o que leio

O que sinto

O que respiro

São meu capacete de astronauta

Quando estou numa atmosfera irrespirável

Apenas mais uma na multidão

Eu estou mega atrasada com a publicação desses exercícios que faço durante minhas lives na Twitch. Este texto é de 07/11/21 e um dos poucos que foram intitulados antes de virem para o blog. A prompt dessa vez foi uma imagem — um desenho feito pela @tinyowlreads de uma mulher sem rosto. Sem mais delongas, aqui está ele:

Apenas uma na multidão. Sem rosto, sem identidade. Será que toda a multidão da qual ela faz parte se sente assim também? Ela tem um rosto, um rosto que existe, um que ela vê todos os dias ao acordar e se deparar com o espelho ao lado da cama. É um rosto bonito, cheio de sardas que, apesar de muitos acharem estranhas, ela ama. É meio que sua marca registrada, o ponto pelo qual ela é reconhecida em qualquer lugar que vai. “A menina das sardinhas”, dizem, quando querem ser engraçados. Mas ela não acha nada engraçado.

Ela quer ser vista, sim, mas sempre de forma positiva. E ela não quer ser vista para ter fama, ela quer ser vista para sentir que é importante. Não por todos, nem para todos, mas por alguém. Talvez por ‘alguéns’. Esse sentimento de não pertencer que ela tem em lugares lotados chega a ser estranho. Afinal, quando o mundo fica demais para ela, ela chora sozinha no metrô. Quer algo mais contraditório que isso?

Mas ela não é uma pessoa triste, apesar dos sentimentos narrados nesses dois últimos parágrafos. Ela é feliz como pode, do jeito dela, espalhando alegria por todos os lugares com seu sorriso que ilumina uma rua inteira, com seus cabelos escuros e lisos que não chegam aos ombros, ombros estes delineados pelos anos que passou praticando natação (bons tempos!), e com seus olhos tão castanhos que parecem até pretos para quem olha a qualquer distância maior que cinco centímetros. Mas de perto, bem de perto, pode-se ver que a parte da íris próxima à pupila é de um castanho claro, bem parecido com o da mãe. A mãe de olhos cor-de-mel de quem ela herdou quase tudo, geneticamente falando.

Ela sorri ao se lembrar da mãe, da facilidade com que a mãe ria de qualquer coisa que ela dizia, e de como os olhos da mãe sorriam quando ela, a pessoa invisível no meio da multidão, gargalhava. O pensamento faz as lágrimas que ela achava que estavam longe de ir embora secarem momentaneamente.

Para a mãe ela nunca fora invisível, e talvez fosse isso que importasse de fato.

Olhando com atenção agora através da janela do metrô, ela percebe que sua estação já está próxima. Ela balança a cabeça rapidamente, tentando espantar todos os pensamentos melancólicos que esses vagões sacolejantes lhe trouxeram, lembrando-se de que, talvez, viver em São Paulo tenha um pouco dessas questões: ser sozinha às 18h de um dia de semana, junto a 100 mil pessoas; sentir-se triste ao pensar no capitalismo e no quanto as pessoas não se olham por estarem muito cansadas para qualquer coisa além de fechar os olhos ou se perderem em pensamentos; fazer parte da roda que gira e, ainda assim, sentir-se muito insignificante em meio a tudo.

Ela se levanta, pede licença apenas alto o suficiente para que as pessoas não pensem que ela é mal-educada, e esbarra sem querer em uma outra pessoa que teve exatamente a mesma ideia no mesmo exato segundo.

— Desculpa – os dois dizem ao mesmo tempo, sem graça, e, também ao mesmo tempo, se olham.

Os olhos dele são de um castanho claro, mas, ao olhar bem, vê-se que a parte da íris próxima à pupila é castanho-escuro.

Ambos sorriem e, por alguns instantes, analisam os olhos um do outro.

E, então, a porta do metrô se abre.

Na tentativa de sair antes que mais uma enxurrada de gente entre, o homem dos olhos castanhos-escuros-de-perto se perde no emaranhado de cabeças que seguem seus corpos em ritmo apressado.

E ela, mais uma vez, fica também perdida, sozinha, no meio da multidão.

Mágica

Este miniconto foi escrito durante uma de minhas lives de escrita na Twitch, em 03/11/21. A prompt era uma imagem de um cachorro salsicha, como se tivesse sido cortado em espiral e, à frente dele, uma casca de laranja, cortada no mesmo formato, com uma fada em cima. A viagem da imagem gerou a viagem do texto abaixo.

— Mas você é uma fada! Como assim, não consegue?

Ela deu um saltinho e trocou o pé de apoio.

— Aquela história da Cinderela ensinou tudo errado mesmo para vocês, né? Que saco! Eu não tenho vara de condão!

Ela trocou os pés com um saltinho de novo, só que, desta vez, os dois pés ficaram no ar antes que ela pousasse o esquerdo sobre a casca de laranja gigante. Desequilibrou-se levemente.

— Estou atrapalhando o seu treino de equilíbrio?

— Um pouco. Mas pode continuar falando.

O cachorro só não rosnou porque era dócil demais para isso.

— Você tem certeza que nenhum amigo seu consegue? Sei lá, de outra espécie, talvez?

— Vem cá, pra que você quer tanto voltar ao normal? Tá bonitinho assim, todo cortadinho. Nem dá pra ver seu intestino nem nada!

— A aparência não é a questão. O problema é que meus humanos não podem saber que eu fui até a terra dos gigantes! Eles vão me doar se descobrirem!

— E seria tão ruim assim?

A fada olhou de repente para a coleira dele, toda de pedrinhas, claramente reprovando o fato de ele ser de posse de alguém.

— Mas é claro que seria! Você obviamente nunca passou fome, né? Nem frio, nem ficou debaixo de tempestades porque ninguém queria que você entrasse nos lugares quentinhos e aconchegantes. Você provavelmente nunca nem mesmo apanhou…

A fada fechou a cara.

— Você não sabe nada sobre fadas MESMO! Eu sou sozinha. Estou sozinha desde que me expuls… – ela engoliu de repente o que ia falar.

O cachorro virou a cabeça, o olhar curioso.

— Então você não pode fazer mágica não porque não consegue, mas por que foi expulsa? Então você PODE me ajudar, só não quer.

A fada respirou fundo, deu mais um salto no ar, bateu as asas e foi pousando levemente na casca de laranja, sentando-se, por fim. O cachorro continuou em pé, agora um pouco mais esperançoso.

— É que… eu jurei que eu nunca iria fazer nada que pudesse me ligar às fadas desde que fui expulsa. Já que não queriam mais que eu fosse uma delas, então eu não seria por completo. Isso faz tanto tempo que eu acho que não sei mais usar os meus poderes. Mágica também é prática, sabe?

O cachorro pensou por um segundo antes de ele mesmo se sentar. Estando todo picotado, ficava um pouco difícil de fazer com que o corpo todo fizesse o mesmo movimento. Ele viu que a fada riu do desajeito dele.

— Deve ser mais ou menos como andar de bicicleta… – ele finalmente disse – os humanos costumam falar que, uma vez que se aprende, não tem como desaprender.

— E eles estão certos?

A fada dobrou as pernas e encaixou o queixo entre os joelhos.

— Acho que sim. Mas eu nunca andei de bicicleta pra saber.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo, até que a fada falou tão baixo que o cachorro não teria ouvido se não estivesse prestando atenção.

— Se eu te ajudar… você me leva com você?

Os olhos dela eram esperançosos, assim como os dele haviam estado ao encontrá-la no lixão onde o gigante o descartara junto com a casca de laranja. Seria a esperança dele tão vã como a dela? Porque… como ele explicaria para os humanos que agora eles teriam uma nova moradora e ela era um ser que ninguém havia visto antes? Como explicar tudo isso se nem falar o idioma dos humanos ele sabia?

Sua respiração deve ter dito tudo, pois ele viu os olhos dela marejarem imediatamente.

Ela escondeu a cabeça entre os joelhos.

— Eu tô cansada de ficar sozinha. – a voz dela saía abafada entre os soluços agora audíveis.

Ele se apoiou nas quatro patas novamente e pulou para o lado dela na casca de laranja gigante, sem se importar que o resto do corpo só chegou alguns segundos depois. Usou, então, de seu único antídoto contra o sentimento de tristeza: cutucou-a com o focinho e, quando ela olhou, deu uma lambida que pegou o rosto dela inteiro.

Ela riu, surpresa, por entre as lágrimas.

— Você tem a sua mágica, eu tenho a minha. – explicou ele – E eu prometo te levar comigo se você conseguir colar meu corpo de volta.

— E se eu não conseguir?

— Te levo mesmo assim. Se os humanos me doarem, pelo menos sozinho eu não vou ficar.

Se cachorros sorrissem, ele estaria sorrindo agora. Quem diria que estar grudado em uma laranja no momento inoportuno em que o gigante decidiu descascá-la ia dar nisso?

Talvez ele devesse se aventurar para fora do mundo dos humanos mais vezes.

A pena

Texto produzido na live que fiz na Twitch em 10/10/2021. A prompt era para escrever um casal na casa dos 60 anos, um encontro às cegas e uma prisão (acho).

Não era comum que isso acontecesse no presídio; na verdade, talvez fosse a primeira vez. Mas ali estavam eles, jantando à luz de velas e… rindo. Como fazia falta rir com alguém!

Ele sabia que estava pagando por um crime que realmente cometera, mas, às vezes, queria ter a habilidade de voltar no tempo e dizer para o seu eu de 65 anos que não valia a pena lavar dinheiro, que era melhor se contentar com a aposentadoria, por menor que ela fosse.

Pegara a sentença máxima – 10 anos – porque, ainda por cima, havia sido colocado como laranja em um esquema extra. Ele não contara a ninguém que, antes do julgamento, vira um de seus sócios subornando o juiz para ter a sentença reduzida. Tinha aquela carta na manga, mas não iria utilizá-la. Que cada um arcasse com suas próprias escolhas e responsabilidades.

— Não acha que já fica sozinho demais com seus pensamentos para fazer isso agora também? — interrompeu a voz de Ana.

José sorriu meio sem graça, pois fora o assunto anterior que despertara todo esse fluxo de pensamento, por mais engraçado que tivesse sido contar sobre os cachorros correndo atrás dele enquanto ele fugia da polícia. Não queria que ela se sentisse mal por ter trazido o assunto à tona. Não que o lugar onde estavam pudesse NÃO lembrá-los do que havia acontecido, mas talvez isso pudesse fazê-la acordar para o fato de que, talvez, ele não valesse a pena.

— Só estava pensando que não é justo você desperdiçar tempo comigo. Eu ainda tenho 3 anos de pena, sabe?

A primeira resposta dela foi com o olhar: havia tanta ternura ali que José se perguntou se alguém, algum dia, já havia olhado para ele daquela forma. A segunda foi ainda mais forte:

— Eu passei minha vida toda esperando por você, o que são mais 3 anos?

Os olhos dele se encheram de lágrimas a ponto de quase transbordarem. Sua vida tinha sido uma sequência de erros completos, mas o primeiro deles fora ter ido embora quando quisera ficar. Ana nunca havia se declarado, mas ele, no fundo, sempre soubera. E, mesmo assim, deixara que o emprego falasse mais alto que o coração.

O dinheiro! Tudo sempre havia girado em torno do dinheiro!

Suas vidas, então, haviam tomado rumos distintos. Ela se casara e ele nunca mais ouvira falar dela. Isto é, até a noite de hoje.

Ele se engasgou um pouco antes de conseguir falar, e a voz saiu com dificuldade:

— A vida toda?            

Ela balançou a cabeça, lágrimas enchendo os olhos dela também:

— Te amei como amigo quando éramos crianças; te amei como companheiro quando crescemos. Se tivesse tido coragem de te dizer antes, talvez…

Ele esticou a mão e colocou sobre a dela.

— Talvez eu continuasse sendo o que sou hoje. Talvez eu ainda tivesse cometido um crime. A nossa essência a gente não pode negar, Ana.

Ela concordou e sorriu um pouco por entre as lágrimas.

— Foi uma sorte eu ter te achado em meio a tanta gente, sabe? Digo, literalmente. Procurei em tantos presídios antes deste que já estava ficando sem esperanças.

— Como você conseguiu fazer tudo isso, aliás?

Ele gesticulou como se a cela estivesse toda enfeitada, mas a verdade é que estavam sentados sobre duas cadeiras de plástico e as velas eram de sétimo dia. Ainda assim, era muito para uma prisão.

— Digamos que cobrei alguns favores que me eram devidos.

Ela sorriu, maliciosa, mas não disse mais nada.

Ele colocou o pedaço de frango (o primeiro em um mês inteiro!) na boca e se concentrou no rosto dela, no leve sorriso que ela dava enquanto brincava com a comida no prato antes de levá-la à boca.

Ele queria perguntar mais, saber dos motivos que a levaram até ali, mas se limitou a sorrir também.

De repente, ele sentia uma certeza de que ainda haveria tempo. Tempo para responder às perguntas e tempo para ser feliz do jeito que conseguisse.

Não era amor, era…

Texto produzido na live de escrita na Twitch de 02/10/21. A prompt era para começar o texto com a frase: Relutantemente, ele entregou a chave. Fiz pequenas alterações apenas para melhor compreensão.

Relutantemente, ele entregou a chave.

Que escolha ele tinha, afinal?

Não era a primeira vez que roubavam seu carro, mas era a primeira vez nessa situação.

Como ele sairia dessa enrascada, não fazia ideia.

Apenas de cueca, rezou para que o sol escaldante do deserto não fizesse muito estrago em sua pele mais branca e delicada que um lírio da paz.

Devia ter previsto que era tudo muito bom para ser verdade, que sua indiscrição não passaria impune.

Talvez, se ficasse pensando em todos os erros que cometera desde o primeiro e derradeiro, não notaria quando estivesse com sede ou com fome.

Mas haveria de passar algum carro por ali em algum momento, certo? O difícil seria convencer as pessoas a darem carona para alguém praticamente pelado no meio do deserto talvez, pois, afinal, havia sido assim que ele havia caído naquela armadilha para começo de conversa.


Não era costumeiro passar por aquela estrada, mas, naquele dia, ele tinha de visitar um cliente que morava onde Judas perdeu as botas. Ele até se assustou quando viu a mulher desesperadamente acenando, parecendo fazer polichinelos naquele gesto sofrido de quem já passara muitas horas sem beber uma gota d’água. Ele parou, é claro.

Ela chorava e quase não tinha forças para falar quando chegou à porta do carro. Se debruçou no vidro antes de entrar, um gesto que ele tomou por alívio. Quando ela finalmente se sentou, só conseguia dizer “Obrigada” sem parar. Demorou uns bons 10 minutos antes de ela dizer o que tinha acontecido: ela estava voltando da casa de uma tia quando a pararam. Fizeram-na se despir e ela temia o que todas as mulheres mais temem, mas os homens simplesmente a colocaram no carro, levaram-na até aquela estrada deserta e deixaram-na ali, levando seu carro de volta para a civilização. Ela disse que nem saberia como prestar queixa, mas deveria ser só porque estava cansada. Afinal, seu carro havia sido roubado e ela tinha como, pelo menos, colocar alguém atrás dele.

Ele a deixou em casa e deu seu cartão de visitas, caso ela precisasse de uma testemunha.

No dia seguinte, ela ligou. No entanto, em vez de pedir que ele testemunhasse a seu favor para a polícia, ela pediu que ele a encontrasse em casa, pois ela só precisava de alguém com quem conversar. Ele entendeu, pois uma situação traumática dessas só poderia ser compreendida por, talvez, a pessoa que a salvara.

Ela lhe disse que havia feito um boletim de ocorrência e que a polícia a avisaria caso encontrassem o carro. Não tinha seguro, então teria de ajustar sua rotina para fazer tudo a pé ou de transporte público, por enquanto.

Ele não soube por que, mas se ofereceu para levá-la onde precisasse ir enquanto não recuperava o carro. Ela hesitou, mas aceitou.

Conversaram muito naquela tarde de sábado, tanto que sua esposa ligou duas vezes para saber onde ele estava. Ele mentiu, é claro. Adriana já era ciumenta demais sem saber que ele conhecera uma mulher seminua no meio do nada.

No dia seguinte, a moça que agora ele sabia chamar-se Claudia, ligou pedindo ajuda para ir ao supermercado. De lá, voltaram para a casa dela e, ao se despedirem, ela lhe deu um beijo demorado no rosto. Gratidão, apenas? O que aquele beijo despertara nele estava longe de ser gratidão.

Da próxima vez que se encontraram, o beijo partiu dele, e foi nos lábios. Ela não fugiu, como ele esperava, mas sim aprofundou o beijo. Uma coisa levou à outra e, assim, começava seu primeiro caso desde que se casara.

Os últimos 10 dias haviam sido tórridos, de forma que, quando ela sugeriu que eles passassem por aquela estrada deserta onde eles haviam se encontrado da primeira vez, ele não pensou duas vezes. Não seriam vistos, mas havia a pequena possibilidade de que isso acontecesse. Isso era o suficiente para excitá-lo.

Pararam o carro quando ela já o havia atiçado além do que ele podia aguentar e, enquanto ele tirava as calças, ela se virou para o banco de trás, onde havia deixado sua bolsa. Quando ela voltou à sua posição original, apontava uma arma para sua cabeça. E, bom, foi assim que ele se encontrou seminu, em uma estrada deserta.


Não percebeu que estava chorando até sentir o gosto salgado nos lábios. Mas seu choro não era só pela sucessão de erros, mas também pela tarefa que tinha à frente. Tinha de ser forte o suficiente quando passasse o próximo carro.

Demorou umas duas horas, mas finalmente ele avistou um pontinho ao longe. Esperou o carro se aproximar para fazer sinal e para, desesperadamente, chorar.

O homem abriu a porta para ele, ele entrou, e pôs-se a contar sua história: estava voltando de uma visita ao cliente quando foi parado por dois homens armados. Em busca de pertences que ele poderia não ter entregado, deixaram-no seminu e, depois, abandonaram-no na estrada deserta.

O homem ouviu a história com uma cara de espanto e com aquele jeito que ele bem conhecia de piedade, pois havia sido exatamente essa a sua reação ao que acontecera com Claudia (se é que era esse mesmo o nome dela).

Ele só não contou a verdadeira história, nem adicionou que, antes de fazê-lo entregar a chave do carro, Claudia lhe disse que, se ele não fizesse o que ela dizia, sua esposa e filhos estariam mortos ao fim de 10 dias.

De repente

Texto produzido na live de escrita de 28/09/21 lá na Twitch. A prompt era mais ou menos assim: “Um amigo te pediu para fazer um jogo na loteria e ele acabou ganhando. O que você faz?”

A gente sempre acha que está apenas brincando quando diz: “se você ganhar, uma parte é minha, hein?”, até o dia em que o impensável acontece: a pessoa realmente ganha na loteria.

Eu nunca achei que fosse ganancioso, até que me peguei pensando: “é, mas, se eu não tivesse ido fazer o jogo, ele não estaria milionário”.

Isso é verdade, mas, olhando pelo lado de que, hoje em dia, um milhão não dá para muita coisa além de comer mais carne no fim do mês, também fico com dó de cobrar.

Costumávamos brincar, quando éramos mais jovens, que 50% de toda brincadeira é verdade. Com a inflação, a porcentagem chegou a 90%. Isso quer dizer que sim, o Fernando sabia que teria de me dar parte da grana se ganhasse. É que acho que ele nunca acreditou de verdade que iria ganhar, né?

Isso é algo que nunca entendi: se a gente joga achando que vai perder, por que a gente joga?

Será que temos uma necessidade inata de provarmos que somos fracassados? E, para provar, gastamos o dinheiro que não temos e nos tornamos fracassados e falidos?

Muito esquisita essa coisa toda de pensamentos e desejos inconscientes.

O fato é que agora não sei como abordar o assunto. Ele me disse que ia à lotérica na semana que vem, então ainda tenho tempo, mas não posso simplesmente chegar e falar: fulano, quando você vai me fazer um Pix por ter ido fazer o jogo para você? Mesmo porque ele poderia entender como um valor simbólico pelo serviço prestado, não parte real do dinheiro. Um Pix de cinquenta mil reais não faria muita diferença e é possível que eu perdesse a amizade do Fernando.

As coisas já estão caras demais para eu ter que fazer outra poupança para comprar outro amigo. Fora que demoraria uns 10 anos até ter dinheiro para comprar um — de caráter duvidoso, ainda por cima.

É melhor ficar com esse mesmo.

Será que, pelo menos, ele vai me convidar para jantar qualquer dia? Eu não aguento mais comer salgadinho Fofura todos os dias! Lembro dos dias em que diziam que essas coisas eram “besteira”, que não eram comida de verdade, que o sódio adiantaria nosso iminente ataque cardíaco.

Pois, até agora, não morri. Tenho 35 anos e já superei em muito a expectativa de vida. Talvez os salgadinhos Fofura tenham sido minha salvação, no fim das contas.

Mas, mesmo assim, às vezes sinto falta de “comida de verdade”. Arroz, feijão, tomate, ovo frito… até carne me dá água na boca, mesmo sabendo que hoje ela está escassa e que não faz sentido comer animais em extinção.

Vou esperar, então, que ele me chame para o jantar. É isso.

Não vou pedir minha parte em dinheiro.

Está decidido.

É. Um jantar está de bom tamanho.

Qualquer um se contentaria com tamanho privilégio, não é mesmo?

Nem todos. Nem todos.

Mas eu me contento.

Minha perna inquieta, fazendo meu pé bater no chão, talvez discorde, mas é o que tenho para hoje.

Esperar por um jantar.

Será que é o fogo já aceso na boca do fogão que está me fazendo esquentar desse jeito?

Estou sentindo que vou entrar em ebulição a qualquer momento!

Levanto, tento andar, mas caio logo em seguida.

O celular pula do meu bolso e cai a uma distância apenas suficiente para que eu possa ver a tela acendendo e uma mensagem chegando.

Tento gritar, mas a dor no peito está muito forte e nem o ar sai direito pela minha boca.

A última coisa que vejo em vida é o texto: “Arnaldo, decidi te dar metade do dinheiro da loteria. Vamos na lotérica comigo pra retirar?”