A vida e as cores

Uma praça em Buenos Aires

Eu vejo a vida em cores.

Verde escuro opaco é o máximo que consigo aproximar o leitor da cor que tenho em mente. Essa cor quase torna tudo ao redor escuro, deixando apenas uma pequena luz ao redor da moça que escreve sobre uma mulher que vai embora sem dizer adeus e se entrega para o mar. É um verde angustiante.

Angustiante também é o cinza, um cinza quase como o céu londrino em dias em que os turistas deveriam estar vendo o Big Ben, mas estão presos em um prédio próximo porque simplesmente não para de chover. Esse cinza é constante, é a cor do vazio.

Mas o vazio nem sempre é ruim. Também existe um branco-neve, daqueles tons que só os esquimós saberiam diferenciar; um branco que é vazio e ao mesmo tempo cheio. É o branco da paz de espírito; o branco tão difícil de aparecer. O branco que todos buscam.

A busca tem tom pastel, meio lilás-aconchegante. Daquelas que vêm junto ao pôr do sol, daquelas que só quem observa bem consegue distingui-las dentre todas as infinitas tonalidades.

E, às vezes, as tonalidades explodem, se tornando tão coloridas quanto o pisar em solo dublinense pela primeira vez, tão coloridas quanto a alegria que de repente toma conta do ser ao se dar conta de que está vivo. E estar vivo, algumas vezes, é tudo que importa.

Que sejamos sempre explosão de cores!

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A mais pura verdade

Ele era um menino tímido, calado. Seus óculos pareciam grandes demais para o rosto, mas, de certa forma, lhe davam personalidade. Estávamos ali, frente a frente naquela aconchegante sala de estar, pois tínhamos um vínculo sanguíneo, ainda que distante. Se tínhamos nos visto antes, não me lembrava. Também não questionava os motivos por trás do nosso encontro repentino ou o fato de ele estar de pijama. Éramos crianças e essas coisas não importavam.

Brincamos, mesmo acanhados, e observei por algum tempo como a inteligência do menino à minha frente se demonstrava em nossas brincadeiras. Lembro-me de desejar ser pelo menos um tantinho igual a ele.

Aquelas poucas horas passaram rápido, mas havia promessa de mais horas como aquelas em outro dia. Se esse outro dia aconteceu, não me lembro. Só me lembro que um dia ele estava lá e, no outro, não estava mais. Aos 5 anos eu tive meu primeiro contato com a morte.

Ninguém me explicou o que significava morrer, mas acho que soube por instinto. Estar lá no céu era um eufemismo que eu não entendia, mas que me confortava. Se ele estava num outro lugar que era ainda melhor do que onde estávamos, então deveria estar feliz. O céu parecia um lugar legal.

Demorei anos para entender a metáfora para a presença versus ausência, mas hoje me pego desejando ter continuado na minha inocência de acreditar que existe um lugar físico chamado céu para onde vão as pessoas que desaparecem. Aos olhos das crianças, tudo é sempre muito mais simples e confortante. Para a criança, tudo é possível, mesmo quando não é. Aos olhos de uma criança com óculos grandes demais para o seu rosto, talvez tudo faça sentido, mesmo quando não faz.


O texto acima foi escrito com base em uma memória que o livro A mais pura verdade me causou. Quem tiver interesse no livro, ele pode ser encontrado aqui.

O que aprendi escrevendo

Livro inspirador sobre o ato da escrita e ser escritora

John Green vive dizendo que os livros são dos leitores e, até certo ponto, concordo. A partir do momento em que as palavras de um escritor são lidas, a história passa a ser um diálogo entre o mundo imaginário do autor e o mundo imaginário do leitor. É uma conexão sem igual que acontece no momento em que nos transportamos para as páginas e esquecemos o mundo real por alguns momentos – o clichê (que sempre me faz virar os olhos) do “viajar sem sair do lugar”. No momento em que nos identificamos com algumas personagens e queremos matar outras é que achamos que a história é nossa, que fazemos parte dela tanto quanto ela já faz parte da nossa história. Mas, com toda essa conversa e identificação que uma história pode gerar, o leitor acaba esquecendo de um detalhe: o que se passa na cabeça dele é diferente do que se passa na cabeça de quem criou as personagens e os enredos. Por mais óbvio que isso possa parecer, na prática são pouquíssimas pessoas que não querem mudar um final, que não querem que casal X termine a história juntos porque não faz sentido as coisas acontecerem como acontecem na vida real, que não dizem que teriam escrito a história de outra maneira.

Na prática, eu sempre fui esse tipo de leitora.

Na prática, em total contradição ao que eu era como leitora, também ficava irritada quando surgiam comentários questionando minhas escolhas para o rumo de uma história que eu escrevia, ainda que minhas histórias fossem baseadas no que de fato aconteceu em determinada série. Porque comentários assim, para mim, era o mesmo que dizer: eu teria feito melhor. Ou ainda: a vida real já tem muito sofrimento. Prefiro ler histórias felizes e completamente fora da realidade.

E foi então que eu passei a analisar as histórias que eu lia com os olhos de quem as escreveu quando algo não me agradava. Passei a me lembrar de que as personagens não eram minhas, o universo não era meu, que a imaginação só era compartilhada até determinado momento. Passei a respeitar mais as escolhas dos autores, mesmo que a história tomasse um rumo completamente diferente do que eu gostaria que ela tomasse. Escrevendo, aprendi a ser uma leitora melhor. Escrevendo, aprendi a ter mais empatia.

Não, isso não quer dizer que eu goste de absolutamente tudo e que não fale mal de algumas obras (quem me acompanha no Instagram sabe que há MUITAS coisas das quais não gosto e das quais preferiria passar longe), mas acredito que talvez eu não teria tido essa percepção toda se não tivesse um dia tido coragem de publicar minhas palavras em algum lugar para que as pessoas lessem.

E é por isso que estou criando este blog. Escrevo como parte de quem sou, mas também como parte do que quero ser. Quando escrevo e guardo para mim, apenas ponho o abstrato no concreto; quando escrevo e compartilho, o concreto se transforma em evolução.

Obrigada por lerem até aqui e, se quiserem continuar acompanhando meu vômito cerebral, ficarei muito feliz. =)

Beijinhos


Para aqueles que ficaram interessados no livro da foto, ele pode ser adquirido aqui.