Morada

Depois de 6567 anos, voltei! Não sei nem por que parei de postar, para ser sincera. A vida às vezes é abstrata demais para sabermos o motivo de tudo. O que importa é que estou aqui novamente e, desta vez, vocês lerão um texto que produzi na minha live de segunda-feira, 11/07, lá na Twitch. Fiz pequenas edições relacionadas a gramática, mas o texto está basicamente em seu formato cru. Eu roubei a prompt do livro Sorrow and Bliss, em que a protagonista faz um exercício de escrita que consiste em começar cada frase com uma letra diferente, na ordem em que aparecem no alfabeto. Aliás, é um ótimo exercício para quem quiser tentar por aí também!


Árvore da vida, indicadora de crescimento, de frutos. Borrado é o sentimento que deixa quando se vai. Cortada pela raiz, ela chora em forma de folhas que caem, que logo vão ser varridas depressa por algum funcionário que só faz aquilo porque precisa comer. Desejos um desses funcionário tem muitos, inclusive de que a árvore fique em pé, que seja sombra para os dias incansavelmente quentes. Eleva o tom da voz enquanto uma canção de ninar dança para fora da boca seca; fatigado está de ter de cantar para a morte. Gestos como esses não são comuns dentre os trabalhadores-matadores, dos destruidores que querem vida em troca. Homenagem nenhuma prestam, rindo, até, do homem que deixa algumas lágrimas caírem ao tocar o solo onde a árvore estava ainda há pouco. Instantes; a vida e a morte sempre separadas por instantes. Jazigos tentam transformá-las na mesma coisa, dizer que o fim é uma continuação em forma de adubo. Lamentam. Mentem para si mesmos, acreditam que as pessoas que se transformam em comida de árvore não são privadas da imortalidade quando o machado atinge o tronco. Negam até os últimos dias que são decadência. Ouvem os pássaros migrando e dão graças a Deus (que Deus?) por não serem mais infernizados por cantorias durante o expediente. Pescam e pecam, depois pedem perdão ao padre. Quanta ilusão! Rapidamente se esquecem, saem rindo e prontos para mais. Solidão é o que sente o homem que varre as folhas, que chora ao se lembrar da árvore sob a qual se sentava quando criança. Tinham tudo, tudo! União do útil ao agradável. Valia a pena, disseram os homens então, trocar aquela mata toda por edifícios. Xeque-mate, arremataram os milionários; zanzaram como zumbis os funcionários.

E Carlos, o não-zumbi, é o único que sente, enquanto segura a folha em forma de coração que restou do majestoso pulmão de sua morada.

Publicidade

Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: