Heroína

Este texto foi escrito no sprint de escrita no meu canal da Twitch em 20/01/2022. Não me lembro mais da prompt, pra variar, mas *acho* que tem algo a ver com a primeira frase. É interessante notar que a maioria dos textos que escrevo por lá são quase que esboços, não necessariamente contos; que poderiam virar romances se eu soubesse escrever romances. Enfim, fiquem aí com a história que estou chamando de Heroína. Não fiz edição nenhuma desde que a escrevi.

Só a encontraram depois de 6 dias. 6 dias.

Ninguém deu falta dela a não ser ele e o pai que, ironicamente, aparecera depois de 20 anos longe da filha. Descobriu que ela se hospedara em um hotel 3 estrelas da cidade, mas não fazia ideia do porquê. Afinal, para que ela iria pagar uma diária se tinha a própria casa?

E os donos do hotel só notaram que a placa de “Não perturbe” estava ali há seis dias quando uma camareira disse que ainda não havia conseguido limpar o quarto da hóspede do 205.

Entraram, por fim, para encontrá-la sem vida no chão, os pulsos cortados, o sangue já seco sobre o carpete, o rosto aliviado como o de alguém que finalmente encontrou paz.

Poucos sabiam, mas ela não era heroína porque queria; era a sina dela.

Ela simplesmente não conseguia ignorar os pedidos de ajuda, os clamores por socorro, as vozes que gritavam dentro da cabeça dela.

Ninguém nunca soube, no entanto, que era isso que ela fazia; que ela salvava as pessoas de situações que iam ocorrer no futuro, de perigos, de mortes trágicas causadas por coisas simples.

A última pessoa a ser salva, inclusive, achou que ela estava tentando roubá-la, quando, na verdade, ela havia acabado de salvá-la de um assaltante armado que lhe custaria a vida.

Era assim mesmo com essas pessoas ingratas.

E era isso o que mais a deixava inquieta, o que mais a fazia se sentir como se tivesse uma maldição em vez de um dom.

Ele sabia disso, porque, em um passado distante, havia sido amigo dela.

Haviam sido amigos até ela descobrir quem ele realmente era. O manipulador, o causador de todos os problemas que ela tentava evitar.

Como amigos eles tinham sido muito bons juntos, mas como inimigos eram ainda melhores. Ele sentia que complicava cada ação apenas para desafiá-la, o que o tornava cada vez mais proficiente em suas habilidades de transformar tudo em caos.

Ele percebeu que havia algo errado quando notou que ela não tentou impedi-lo de dar um golpe de 50 mil reais em uma pessoa ingênua. Ele foi em frente com o golpe e teve sucesso, mas ficou se perguntando o que havia dado de errado para ela.

Depois, sequestrou um cachorro em busca da recompensa gorda que sabia que viria, mas ela também pareceu não se importar. Então, no terceiro dia, ele ligou para o pai dela e foi assim que a encontraram no hotel.

Agora ele via o corpo dela e quase se arrependia de tudo pelo qual a fez passar. Com certeza ele havia sido parte do problema. Será que algum dia ele conseguiria se retratar de alguma forma?

Parar com o crime seria o caminho mais fácil, mas ele sabia que não conseguiria. Da mesma forma que ela era atraída para os casos de salvamento, ele era atraído para aqueles em quem conseguiria passar a perna. Mas, talvez, agora que ela não existia mais, ele não tivesse mais tanta vontade assim de fazer nada elaborado. Talvez ele fosse descuidado em alguns momentos. Talvez, em algum desses momentos, fosse pego pela polícia.

Talvez, de certa forma, ela ainda fosse a heroína daquela sociedade específica.

Publicidade

Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: