É fogo

O texto abaixo não era para ser publicado aqui hoje, pois ainda nem postei todos os que produzi em janeiro e minha intenção era que ficassem em ordem cronológica. Porém, hoje presenciei dois negacionistas/teoristas da conspiração conversando por menos de um minuto e gritei em pensamento: O SER HUMANO TEM DE SER EXTINTO! Como isso está diretamente relacionado ao esboço que escrevi na live do último domingo, decidi quebrar todas as minhas regras e publicá-lo como forma de desabafo.


Enquanto o fogo derrete as pessoas, ela ri; gargalha.

É um som de desespero profundo porque ela não consegue mais chorar.

Ela avisou, eles não escutaram.

— Não elejam essa merda de presidente! — ela gritava.

Chacoalhava as pessoas na rua, fazia pontos de educação sobre política e educação sobre educação. Nem todo mundo entendia que fazer mal ao outro é ruim, que controlar os corpos e querer que todes vivam a verdade de alguns é se equiparar a Deus ou a qualquer entidade que entendam por Criadora. Nem todes nasceram para ser humanos, mesmo que sejam.

Por isso mesmo é que ela tentava ajudar, mas só teve sucesso em alguns casos.

O pior aconteceu, mesmo depois de todo o esforço: o Merda ganhou.

O primeiro decreto do Merda foi a proibição da livre fala. Se alguém era pego falando sobre política, era imediatamente preso.

E torturado.

Algumas pessoas só então viam que aquela história de “não houve ditadura” era uma falácia, pois tiveram que viver na pele tudo aquilo pelo qual seus antepassados passaram e contra o qual lutaram para que não se repetisse. Descobriam, após alguns choques em seus corpos nus, que haviam falhado como seres humanos simplesmente por não terem ouvido.

Houve um período de calmaria depois disso, em que, por ninguém emitir opinião em lugar nenhum, a única coisa que se via nas ruas era uma multidão de gente sorrindo — sorriso tão forçado que começaram a surgir clínicas de estética para mudar os lábios para um sorriso permanente.

E, então, ela teve uma visão: o Merda ia queimar a todes les que tinham um sorriso no rosto. Aquilo havia se tornado muito lugar-comum e ele estava entediado.

De casa em casa, então, ela ia, tentar alertar as mesmas pessoas que não a ouviram antes, mesmo com o medo persistente de que alguém iria denunciá-la a qualquer momento. Felizmente, as pessoas estavam muito preocupadas em sorrir para fazer uma ligação para o Centro de Controle de Pessoas Com Ideias. O sorriso congelado as impedia de articular as palavras propriamente e poderia haver alguns desentendimentos.

Foi com tristeza que, no dia ilustrado pela visão, ela partiu com uma mala e uma passagem de avião, seguida por ninguém.

E agora, no país a milhões de quilômetros de distância em que encontrou refúgio, ela assiste as notícias que estão em todos os canais: o apelidado de Presidente Louco fez os militares tacarem fogo em toda a população.

“Atenção, notícia de última hora!”, ela ouve a repórter na língua estrangeira falar.

O que mais pode ter acontecido que seja mais importante que um país inteiro ser levado às cinzas?

A repórter logo responde:

“Os militares, afetados pelos próprios atos, se voltaram contra o presidente. Atearam fogo nele também e, depois, atearam fogo em si mesmos. Isso significa que, agora, o Brasil está vazio no tocante a pessoas. Só restaram alguns animais. A ONU ainda não se pronunciou sobre o assunto.”

O choque começa pelas mãos e chega até o cérebro devagar, deixando-a completamente paralisada.

O Merda morreu.

O país pode renascer.

Tomara que a natureza tome conta e o deixe inabitável.

Talvez seja esse o real significado de florescimento.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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