Intimidade demais

Este texto foi escrito na live na Twitch de 08/01. Pra variar, não me lembro exatamente da prompt, mas estava relacionada ao Schwarzenegger ter salvado o mundo. Fiquem, então, com mais uma das coisas bizarras que minha cabeça inventa em 45 minutos.

Eu queria me esconder, mas é impossível. Lá vem aquele mala, cheio de pompa, achando que pode fazer o que quiser porque ele é homem e chefe e sei lá mais o quê. Ugh! Não dá pra entender como ninguém nunca repreende um cara desses!

Eu viro o rosto, tento procurar alguém com quem falar, mas todos estão em conversas sérias com seus respectivos interlocutores e não tenho como fugir; serei mesmo alvo do mala-sem-alça.

Dou um sorriso forçado quando ele chega perto, mas levo a taça de vinho com rapidez aos lábios para que ele não me dê um beijo no rosto. Pelo menos dessa vez dá certo, porque ele para no meio do caminho ao ver que estou demorando demais para parar de beber. Quando vejo que não há mais perigo, desço a taça e menciono um “esse vinho é muito bom!” para disfarçar.

— E então, como anda a vida?

Quem ele acha que é para saber da minha vida? Ele só sabe meu nome, quiçá nem isso.

— Vai muito bem, obrigada.

— E o namorado?

— Sou lésbica – respondo, mesmo que não seja verdade. Só quero que ele veja que há limites sobre as perguntas que se faz a desconhecidos.

— Ah… – ele parece mudar de ideia sobre o que falaria depois, e eu imagino que ele tenha algum tipo de script programado que nunca dá errado. Provavelmente fui a primeira a provar que há falhas no plano dele. – Como está a namorada, então?

Eu respiro fundo antes de responder.

— Bem, muito bem. Deve chegar aqui a qualquer instante. Ficou presa no trabalho e não pôde vir no começo.

— Então em breve vou conhecer a felizarda, que maravilhoso! Quem sabe a gente não pode ir se divertir depois daqui, hein? Nós três… acho que ia ser uma boa ideia. Conheço um lugar bem legal em que a gente podia ficar a sós.

Ele nem termina de falar e já sinto o vinho voltando pelo esôfago. Ia ser engraçado se eu vomitasse nele, mas não quero passar vergonha em frente a outras pessoas também.

O dedão que segura a bolsa de mão passeia inconscientemente pelo fecho, mas só agora me dei conta de que ele está fazendo isso desde que o fulano-que-se-acha-o-máximo chegou, como se dissesse: bom, acho que isso tudo já foi longe demais. O meu dedão está certo.

Coloco a taça de vinho na mesa ao lado para abrir a bolsa e aperto o botão do pequeno dispositivo assim que o encontro. Me sinto tão aliviada só por esse gesto que fico me perguntando por que não fiz isso antes.

Quando me viro, o ser inconveniente ainda está olhando para mim, com um sorriso prepotente do tamanho do mundo no rosto, provavelmente pensando que eu vou aceitar a proposta dele.

Meu sorriso também pega meu rosto inteiro nesse momento, mas o motivo é outro.

Na verdade, eu quase gargalho quando uma mão com uma arma chega ao lado da cabeça dele e atira bem na têmpora, fazendo-o cair para o lado.

As pessoas ao redor param para ver o que está acontecendo, mas, percebendo que não é nada além do comum, voltam para suas interessantes e importantes conversas.

— Obrigada, Arnold, – digo para o autômato à minha frente.

O robô apenas faz uma reverência antes de sair caminhando pelo mesmo caminho de onde veio.

Schwarzenegger foi mesmo um salvador quando resolveu inventar máquinas programadas para matar aqueles que julgam ter intimidade demais.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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