Recomeço

Escrevi o texto abaixo na live de 31/12/2021, lá na Twitch. Uma autoficção fora de época com base em uma prompt da qual já não me lembro, mas tinha a ver com realizar algo que prometeu no ano anterior antes do pôr do sol do dia 31.

Eu disse que nunca, nunca mais ia passar a virada do ano triste, assistindo aos fogos pela TV, enquanto eu poderia estar na praia, festejando com aquele monte de gente em Copacabana. Eu disse isso e nunca cumpri, pois a Covid chegou para dar risada da minha cara. Ela não só riu, como também sapateou em cima da minha coragem e vontade de viver. Nem em mim ela entrou (ainda bem), mas peguei a outra doença que ela transmite: desesperança.

Entro no ônibus — a primeira vez que faço isso em dois anos — e sinto o ar me faltar. Não é por conta da máscara, a pff2 tem boa respirabilidade, é por conta do grande passo que estou dando e é, também, pelo sol começando a se pôr e mudando a luminosidade dentro do ônibus. Meus olhos se enchem com a vastidão de cores, se derramam por trás dos óculos escuros que completam meu look de “ninguém conseguiria me identificar na rua”. Que bom. Ser vista chorando em locais públicos sempre foi um dos meus maiores medos.

Sento-me na poltrona que reservei ainda hoje pela manhã e rezo para que a do lado não tenha sido reservada de última hora. Passar 6 horas em pânico de pegar Covid da pessoa ao lado não vai ser muito legal. Ainda assim, considero isso melhor do que chorar a noite toda por nunca conseguir colocar meus planos em prática. Se eu morrer, pelo menos morrerei sabendo que tentei fazer o meu melhor para ser feliz em um mundo tão fodido.

Melhor pensar assim.

Fecho os olhos e penso se encostar a cabeça na janela é uma boa ideia. Provavelmente não. Então, me encosto no assento enquanto o reclino, depois viro a cabeça de lado para continuar vendo o pôr do sol. A transição do dia para a noite dura o mesmo tempo que a transição da minha consciência para minha inconsciência.

Quando acordo, estamos em uma parada. Temos ainda 15 minutos, aparentemente, e eu preciso esticar as pernas. Minha bexiga também não aguenta mais. Passo pelo motorista, que fuma na lateral do ônibus, e me pergunto se ele não tem medo de fumar tão próximo assim do tanque de combustível. Deixo esse pensamento se esvair enquanto corro para dentro do Graal lotado. Espero tempo o suficiente na fila do banheiro para acreditar que eu poderia molhar as calças, mas finalmente consigo ir.

Pronto! Aliviada, pernas esticadas, estou pronta para voltar a seguir viagem.

Saio para o estacionamento de ônibus e… cadê o meu?

Só tem um parado ali, mas ele veio de Itapecerica da Serra e está indo para sei lá onde. Definitivamente não é o ônibus que me trouxe até aqui.

Deixo a mochila cair dos ombros, me agacho no chão e… choro. Um choro com gosto, com tudo o que está acumulado dentro de mim, que vem enchendo meu peito nos últimos dois anos. Choro pelas perdas de vida em sentidos reais e metafóricos, choro por finalmente estar saindo de casa, choro por estar sozinha, choro por querer estar sozinha, choro pelo meu ônibus ter partido sem mim. O ônibus representa o que sempre acontece comigo em todas as ocasiões: sou sempre deixada para trás. É isso o que dói, de fato. Será que algum dia deixarei de ser invisível ou um mero passatempo?

— Perdeu seu ônibus também? – diz uma voz ligada a pernas que param do meu lado.

Olho para cima e vejo uma moça exalando a fumaça do cigarro que carrega aceso em uma das mãos. Eu odeio cigarro e odeio fumar passivamente, mas, nessa situação, não tenho muita escolha.

— Aham – murmuro, meio que sem saber se quero a presença dessa pessoa justamente nesse momento.

— Para onde você tá indo? Eu consegui uma carona com um cara bem legal que conheci na fila do restaurante e, aparentemente, ainda cabe mais duas pessoas no carro.

— Tô indo pro Rio — respondo antes de me dar conta. Estou tão desesperada assim para pegar carona com desconhecidos?

— Então acho que fechou. É pra onde a gente tá indo também. A gente racha a gasolina depois e fica tudo certo.

Racionalmente, eu sei que seria mais seguro eu ir até um guichê da companhia de ônibus e comprar outra passagem, mas algo dentro de mim me diz que eu estaria fazendo a escolha errada. Afinal, como é que alguém quer ser feliz sem correr riscos, sem sair da bolha certinha em que se envolveu e a qual nunca conseguiu furar?

Me levanto, estendo a mão em direção a mão oposta da moça e a aperto.

— Meu nome é Clarice. Obrigada por não me deixar para trás.

A moça sorri de modo sincero.

— Amanda. — ela aperta minha mão de volta — Enquanto eu for viva, ninguém nunca vai ficar pra trás. Acho que essa é a minha missão, sabe? Gosto que as pessoas saibam que não estão sozinhas.

A fala dela quase me faz voltar a chorar e eu tenho uma vontade imensa de abraçá-la. Mas me contenho, lógico; já não chega aquela vez em que praticamente pedi um beijo no rosto para uma mulher desconhecida na estação de metrô. Não quero passar por tamanha vergonha de novo.

Então, apenas retribuo o sorriso dela, talvez com um pouco mais de dentes do que o que tinha tido a intenção de mostrar, mas tudo bem.

Ainda não é um ano novo, mas já sinto que é um recomeço. Talvez eu saiba me adaptar ao mundo novamente. Talvez eu possa voltar a ser feliz.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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