Um passo adiante

Dando continuidade às publicações dos minicontos que produzo durante os sprints de escrita que faço na Twitch, apresento a vocês o que surgiu a partir do trecho abaixo, tirado de uma música da Marina Sena.
Originalmente escrito em 27/12/2021.

Vivo em tela viva

Tela de cara e coragem

Solta esse seu muro

E põe os pés nessa viagem

Todos os dias. Ele a observava todos os dias.

Parecia estranho, mas ela parecia acompanhá-lo. Os olhos nos dele, um sorriso meio malicioso nos lábios e as bochechas um pouco coradas que, em alguns dias, pareciam mais rosadas do que em outros. Talvez fosse a luz.

Ele nem entendia essa paixão repentina, esse magnetismo. Ele nunca se apaixonara (pelo menos não dessa forma). O fato de ela retribuir o olhar o transformava em um ser menos ou mais estranho?

O que faltava era a coragem para dar um passo adiante, saber mais. Ele ansiava por ela e a temia na mesma proporção. Misteriosa seria um adjetivo bom para descrevê-la.

Ele teve a impressão, um dia, de que ela abrira a boca para dizer algo, mas ele piscou e a boca estava novamente fechada. Será que ela também o temia?

Bom, agora era a hora certa para descobrir. Ninguém estava ao seu redor e, mesmo que estivesse, a luz era fraca demais para que vissem ou ouvissem qualquer coisa.

Ele sorriu para ela, a coragem finalmente enchendo seu peito. O sorriso dela se tornou um pouco mais malicioso, a sobrancelha direita se arqueou.

— Eu achei que você nunca daria o próximo passo — disse ela finalmente. A voz era suave, encantadora.

— Eu não sabia se era coisa da minha cabeça ou se… — ele deixou a frase terminar assim, pois sabia que ela entendia.

— Eu me chamo Ana, mas acho que você já sabe – ela riu, parecendo um pouco encabulada.

— É, eu andei dando uma pesquisada. – Desta vez foi ele quem sorriu sem graça.

— Então você sabe que eu…

— Sim, eu sei. Você é uma incógnita para todos os que já te procuraram. Tem uma lista maior de gente que já procurou saber de você do que de pessoas que têm qualquer ideia de quem você é.

— É que poucos têm coragem de ir até o fim. Se perdem no meio do caminho, acham que eu não valho a pena. Não querem ser levados à loucura por minha causa.

Ele olhou para os próprios pés ao ouvir isso. Teria ele a coragem que os outros não tiveram? Se ele estava aqui, provavelmente significava que sim. Estava na hora de começar a viver um pouco, afinal.

— E o que eu tenho de fazer para ser diferente dos outros?

— É só me dar a mão.

Ele esticou o braço sem nem pestanejar, e sua mão arrepiou-se de leve ao entrar em contato com a pele fria dela. Mas ele sorriu largamente quando, com mais alguns passos, conseguiu enganchar seu braço no dela.

Pisou na grama macia e percebeu que, no mundo dela, o céu lhe parecia tão azul quanto o céu de uma pintura.


No dia seguinte, o segurança do museu parou por alguns segundos em frente ao quadro e se deu conta de que, nos 11 anos em que trabalhava ali, nunca havia prestado atenção na pequena mancha que parecia ser a figura de um homem, bem ao longe, como se admirando a protagonista da cena. Ela, por sua vez, continuava ali, com seu sorriso malicioso parecendo convidar as pessoas do outro lado a se juntarem a ela. Para o quê, ele não sabia. Afinal, como uma mulher feita de mistura de tintas poderia convidar alguém para qualquer coisa que fosse?

Publicidade

Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: