A biblioteca

Foi ali que li meu primeiro livro de mais de 200 páginas, aos 8 anos, me sentindo vitoriosa e, pela primeira vez na vida, especial. Foi ali também que, anos mais tarde, descobri O Senhor dos Anéis, O Mundo de Sofia, e tantas outras histórias, que aprendi sobre a necessidade do silêncio que as palavras proporcionam. Foi ali também que parei de visitar quando pude começar a comprar o que antes só pegava emprestado.

Voltei 20 anos depois, assustada com a velocidade do tempo, da tecnologia, da brevidade da vida. Voltei para doar meus excessos na esperança de que preenchessem vazios de outras pessoas.

A imagem que eu tinha até então – muito vívida, inclusive – era de umas três fileiras de prateleiras só de livros de leitura, de um lance de quatro ou cinco degraus que davam acesso a um lugar bem maior, cheio de bancadas e bancos de madeira posicionados de modo a permitir que a pessoa que buscasse conhecimento se dirigisse à pessoa que lhe entregaria o conhecimento em forma de papel, enciclopédia, livros didáticos.

A imagem que tenho agora é de um lugar abandonado, de um silêncio morto, de tristeza no olhar dos dois funcionários que mantém aquela estrutura com uma prateleira em pé no meio de um deserto em plena cidade.

Choque.

Era só deixar os livros ali que a bibliotecária arrumaria depois do almoço e veria o que servia para aquela biblioteca e o que poderia distribuir para outras.

Simpático, amistoso.

Mostrou, com alegria, como os livros ficavam expostos, para chamar a atenção de qualquer um que entrasse. Rosa Montero, livros infantis, autoajuda famosinhos, uns coloridos posicionados estrategicamente para se destacarem em meio ao preto e branco ao redor.

O outro sorriu, passos mostrando calorosas boas-vindas, curioso sobre a pilha que estava sobre a mesa.

Outro choque.

Os livros estavam todos novinhos, como isso poderia ser? O não dito pronunciou: não temos o costume de receber qualquer coisa além de páginas faltando, lombadas descoladas e ninhos de traça em alguma parte da lombada descolada.

Vivem da doação da população, acrescentou em som audível o primeiro, pois comprar é impossível. Contribuição é alegria no coração.

Não, não quero deixar meu nome, disse eu para os dois; caridade real não precisa ser divulgada, disse para mim mesma.

(É, acho que agora deixou de ser caridade.)

Um nó no peito nos passos lentos em direção à saída; a voz da minha mãe no ouvido direito: você viu o estado da biblioteca?

Ela também ficou em choque.

Quem apresenta um mundo assim à filha não entende quando ele definha na mesma proporção que o mundo fora dele.

Ficamos as duas assim, no silêncio pensativo e cheio de culpa daquelas que contribuíram para o abandono sepulcral.

E o silêncio persistiu até agora, quando resolveu se abrir para pouco mais de 200 pessoas que recebem minhas palavras. Um sentimento de afeto doído e vontade de mudar, enquanto caixas da Amazon chegam porque três livros saíram por 45 reais, quando apenas um deles, geralmente, custa 46.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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