A edição de um livro influencia o ritmo de leitura?

Eu sempre achei frescura das pessoas quando as via falando de as páginas do livro serem brancas, ou finas demais, ou que um capítulo termina e, na mesma página, outro começa. Sempre pensei: “Nossa, mas o mais importante não é a história? Se a história for boa, você vai ler de qualquer jeito.”

Mas a vida tem aquele jeitinho especial de nos mostrar quando estamos errados simplesmente nos fazendo passar por determinada situação. A minha situação está sendo com a experiência de leitura de A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón. O livro está incrível, a história é muito boa, as personagens todas são muito bem construídas, não há descrições muito desnecessárias… enfim, tudo o que um livro precisa ter para me agradar.

Mas a leitura não anda.

Sabe aquela sensação de ter lido por uma hora ininterrupta e continuar na mesma página?

Fiquei me perguntando o porquê de um livro aparentemente curto e “simples” estar se arrastando tanto, até que cheguei a uma conclusão: é a edição.

Uma mão segura o livro A sombra do vento em frente a um fundo bege. A foto está com algumas sombras. No canto esquerdo, a marca d'água do blog/instagram: Nane Verso 2021 dentro de um triângulo.
Edição de A sombra do vento que tenho

A edição na qual estou lendo é da editora Objetiva, com 341 páginas. Só que são 341 páginas com capítulos que começam na mesma página em que termina o outro e, pode ser apenas impressão minha, mas sinto que as margens são um pouco menores do que as dos livros que estou acostumada a ler. A leitura “não anda” porque a diagramação não é exatamente convidativa para mim.

Há alguns anos, passei por um programa de reabilitação alimentar em que aprendi que os olhos são parte importante da refeição; um prato bonito de se ver tem muito mais chances de me fazer comer de maneira saudável do que um prato arrumado de qualquer jeito. E chego hoje à conclusão de que isso serve também para os livros.

Talvez seja esse o motivo de todo mundo dizer que a leitura no Kindle rende muito mais do que a leitura em um livro físico; afinal, você pode personalizar sua experiência de leitura, com as fontes e margens que julga mais adequadas, além de não precisar ficar ansioso de ver os números de páginas não passando, se não quiser.

Este post, então, é um pedido de desculpas a todas as pessoas que julguei. Hoje entendo suas “dores” e concordo que uma boa edição pode, sim, influenciar a experiência de leitura.

Tela azul

Eu não aguento mais tanta gente morrendo. Eu não aguento mais estar 5 dias atrasada nas tarefas (de acordo com meu planner). Eu não aguento mais não aguentar mais e continuar aguentando, como dizia um post que vi ontem no Instagram.

O mais triste é saber que não estou sozinha. Geralmente, não estar sozinha é algo que me ajuda, mas não na atual situação. Não sabemos mais que dia é hoje, não sabemos mais até que ponto a concepção de tempo é mesmo real ou apenas uma invenção da humanidade. Disse isso para uma seguidora/apoiadora no Instagram: não sei mais até que ponto é verdade que a Terra gira e que tenhamos dias e noites e até que ponto isso não é só uma ilusão de ótica para nos fazer colocar algum padrão em alguma coisa.

Pensando bem, acho que escrevi exatamente sobre isso sem querer. É na ficção que minhas ideias mais estranhas se mostram e, aparentemente, são apenas ficção mesmo. Pois, afinal, como é que poderíamos todos estarmos sendo controlados sem sabermos? (A raça humana inteira e o universo todo, mesmo, não o controle que atribuímos ao Sistema e à Sociedade como um todo).

Isso me lembra que preciso refinar mais meu texto porque o edital para o qual o escrevi tem prazo. O que me lembra do prazo do outro edital, para o qual jurei que enviaria um texto também, mas as ideias se embolaram tanto que se transformaram numa história que uma criança de 5 anos escreveria nas aulas de redação da escolinha. (Tem aula de redação na escolinha?)

A memória, aquela de que me gabo o tempo inteiro, está nebulosa. Será que parte do conteúdo dela foi carregado para a nuvem e esse é o real motivo? Poderia ser. Em um mundo cada vez mais desumano, parece que viver em forma de dados seria a melhor opção – apenas fatos, nenhum sentimento.

Uma vida imortal e indiferente. Talvez apenas uma vida diferente.

O Globo de Ouro de Gillian Anderson e o que isso tem a ver comigo

Fotos respectivamente do GettyImages e da NBC (mas também poderia ter sido uma foto da minha TV)

Eu comecei este post querendo ser profunda, mas a escrita não estava fluindo. Isso, para mim, é sinal de que estou escrevendo errado, sem coração. O que eu queria falar mesmo era de como meu coração se encheu de ver Gillian Anderson ganhar o segundo Globo de Ouro de sua carreira, de como eu a admiro cada dia mais, e de como Marina, Ana e eu achamos que o Oscar vem para ela antes dos 60. Mas, sabe, as pessoas acham esse tipo de post fútil. Alguns, inclusive, postam nas redes sociais frases do tipo “Apoie seus amigos como você apoia suas celebridades preferidas que não estão nem aí para você”.

Olha, isso é bem verdade. A Gillian não está nem aí para mim. Ela viu a minha cara algumas vezes e até se lembrou de mim por um fim de semana inteiro, mas foi tudo o que consegui de memória dela. E está de bom tamanho para mim. 

O que importa mesmo é o sentimento que ela causa em mim, a inspiração que ela irradia e me faz querer mais, ser mais. E é essa troca, mesmo que ela não saiba que está trocando algo comigo, que me impulsiona também a ver o mundo de outra forma. Somos apenas parecidas no quesito de não gostarmos muito de pessoas (de vez em quando?), ou talvez nas caretas que fazemos quando nos sentimos confortáveis com alguém. Mas Gillian é tão parte de mim quanto são meus (poucos) amigos. Eu posso não ser parte dela, mas ela é parte de mim. Então, por que não falar dela quando ela atinge um novo ápice de sucesso? Por que não exaltar o sucesso de quem me faz bem? E ela me faz tão bem que, ao assistir o Globo de Ouro só para vê-la, acabei entrando num buraco fundo de reflexão sobre a vida, sobre minha trajetória até aqui. 

Enquanto assistia à premiação, tive algumas surpresas. A surpresa mais marcante poderia ter sido Laura Pausini ganhando o prêmio de melhor canção original e eu nem saber que ela havia sido indicada. Poderia ter sido também Josh O’Connor ganhando o prêmio de melhor ator por seu papel como príncipe Charles em The Crown, mesmo não sendo favorito. Mas não. A surpresa maior foi ver Hugh Grant cheio de rugas e de cabelos brancos. Foi ver Sean Penn e precisar analisar bem para ter certeza de que era ele mesmo. Foi ver Al Pacino quase irreconhecível. Porque, mesmo não sendo fã deles como sou de Gillian, os filmes deles me acompanharam pela vida também. Ver a juventude se transformando em velhice foi algo chocante porque me lembrou da minha própria finitude, do meu próprio envelhecimento. Não sou mais a criança que assistia Arquivo X com a mãe nas noites de sextas-feiras. Eu cresci e agora sou mulher, tenho que encarar com muita fé.

Fiquei nostálgica por tempos que gostaria que voltassem, mas, principalmente, fiquei ansiosa pelo futuro. Geralmente, a ansiedade me mata; desta vez, ela está me fazendo ver as coisas por outro ângulo. Porque, da mesma forma que atores e atrizes envelheceram e já nem ouço mais falar tanto deles, outros atores e atrizes estão envelhecendo cada vez mais fortes, com voos cada vez mais altos, com a frase clichê estampada no inconsciente: o melhor ainda está por vir.

E foi isso que Gillian Anderson ganhando seu segundo Globo de Ouro aos 52 anos fez por mim: me fez enxergar que, apesar de estar envelhecendo, não sou tão velha que meu auge tenha ficado para trás. 

Parabéns, Gillian. Obrigada, Gillian.

O cocô do cavalo do bandido

O cocô do cavalo do bandido voou e foi parar no cérebro da moça que nada tinha a ver com a história. Uma artista em corpo de professora mal paga e completamente desvalorizada em todos os sentidos. E, de pensar tanto em sua impotência, acreditou ser incapaz. Invisível. O sonho era grande e ela estava disposta a voos altos. Não tinha medo da queda, nunca tinha tido. Mas, agora que o cocô do cavalo do bandido havia se misturado ao cérebro, ela sentia como se já tivesse caído; a queda havia quebrado todos os seus ossos e ela, mais uma vez, estava impotente, incapaz. E invisível. As pessoas ao seu redor a olhavam – quando olhavam –, mas não ajudavam a remendar seus ossos. Não chamavam um médico, não paravam para ajudar, não achavam que ela merecia. Afinal de contas, há tanta gente no mundo para ser ajudada, por que razão ela seria uma delas? Ela não podia se esquecer: era o cocô do cavalo do bandido e as pessoas a tratavam como tal.

Foto por Dids em Pexels.com

Sem gentileza – Futhi Ntshingila

Foto autoral

As primeiras páginas de Sem gentileza, escrito pela sul-africana Futhi Ntshingila, ditam a intensidade do que teremos pela frente. Mvelo, 14 anos, cuida sozinha da mãe com aids e precisa vasculhar os lixos em busca de comida para poderem sobreviver. Esta situação está destacada em um trecho que escancara as diferenças entre as classes:

Nós, os esquecidos, sabemos que segunda-feira é dia do lixo. Nós saímos em peso nas manhãs de segunda para vasculhar os sacos pretos que guardam essa linha frágil entre a vida e a morte para nós.

Ficamos com essa sensação de aperto no peito à medida que, uma após a outra, as tragédias vão moldando a vida de Mvelo. E não que gostemos de tragédia ou torçamos para isso, mas é o que faria mais sentido naquele contexto. O coração, de apertado, vai até à boca. Nos seguramos na cadeira e quase roemos as unhas quando… a autora começa a contar outra história, do nada. Sim, histórias de outras pessoas (ainda que relacionadas à história de Mvelo), deixando aquela sensação de anticlímax no ar e no fundo da nossa garganta. O coração volta para o lugar, desapontado.

É compreensível o caminho que Ntshingila toma para demonstrar a importância da ancestralidade e de conhecermos a cultura de um país acostumado com adolescentes sendo engravidadas por “tios”, com violações disfarçadas de teste de virgindade e com homens que acreditam ser trabalho da mulher se proteger contra doenças e gravidez em plena alta do vírus HIV. É compreensível, mas não necessariamente a melhor escolha para manter o leitor cativado. Afinal, por que começar o romance contando a história de Mvelo se a personagem vai ser “esquecida” até quase o fim do livro? Falta equilíbrio entre os pontos de vista, nos dando a sensação de que algo deu errado em algum momento da escrita e que ninguém notou antes de publicar. A impressão que fica quase até o fim é que Mvelo, no fim das contas, fora apenas o gatilho para a história real que Ntshingila estava tentando contar.

O que ela queria contar mesmo é a história dos conflitos entre brancos e negros, entre negros e negros, entre os seres humanos e o HIV, entre as mulheres e a liberdade que nunca tiveram. Há muitas questões importantes que são pontos de reflexão neste livro, que abrem debates também importantes ainda nos dias de hoje. A história se passa nas décadas de 1990/2000, o que significa que não está tão longe assim do que conhecemos hoje. O patriarcado ainda está aí, mulheres reproduzindo discursos patriarcais sem saber também, e, principalmente, homens que se acham donos de mulheres simplesmente por terem um órgão balançando entre as pernas. Homens que confundem abraço com “quero transar” e homens que se doem quando usamos a palavra “patriarcado”. É dolorido sentirmo-nos na pele de Mvelo e de Zola em muitas situações.

Em contraste com esse sentimento e de forma bem executada, Futhi Ntshingila narra os acontecimentos com destreza e sutileza. Ela nos engana ao nos fazer pensar que estamos prestes a ver outra tragédia se desenrolar para, então, nos presentear com a mulher vencendo. O problema disso tudo é que, em determinado momento, a história fica tão leve que a narrativa se perde em meio a uma novela mexicana digna de ser reprisada no SBT por anos a fio. De repente, sentimos que uma história que começou extremamente adulta se tornou infantil, com soluções tão mirabolantes que até Paola e Paulina se surpreenderiam.

O fato é que o livro começa no topo da escada e termina no primeiro degrau. Uma pena. No entanto, fica aqui a indicação para quem gosta de sair do eixo comum de leituras (que geralmente se resume a Estados Unidos, Reino Unido e Europa) e para quem tem interesse em saber um pouquinho mais sobre a África do Sul.


Livro lido para o projeto Epifanias Continentais, da @epifaniasliterarias_ .


Editora: Dublinense

Tradução: Hilton Lima

Páginas: 160

O final do livro tem qual impacto na sua impressão sobre ele?

*Contém spoilers do final de Pessoas Normais no último parágrafo*

Terminei Pessoas Normais e uma pergunta antiga me veio à cabeça: por que nos apegamos tanto aos finais? 

Se foi a jornada que nos trouxe até ele, se foi a jornada que nos fez rir, chorar, jogar o livro pela janela (e acertar a pessoa que estava passando e aí temos que levar a pessoa para o hospital e descobrimos que somos almas gêmeas e… do que eu estava falando mesmo? Ah, é, voltemos ao final)… Se são 200 páginas que nos causam emoção, por que jogar o peso todo do livro nas últimas 10?

Reparem que estou usando a primeira pessoa do plural, pois me incluo nisso. (Ainda penso em Tirza, mesmo depois de quase um ano).

É difícil separarmos nossas expectativas da realidade, pois criamos um universo todo novo na mente e, para nós, esse universo é que é real. 

Pergunto, então, o que faz um final ser bom? Um final que atenda às nossas expectativas? Mas aí entra outra questão: livros de mistério nos desapontam quando atendem nossas expectativas. (Razão, aliás, de eu ainda não ter feito as pazes com Agatha Christie).

Qual é a fórmula mágica, então, para um final “perfeito”?

Para mim a resposta é clara: que ele seja coerente com o que foi apresentado na jornada, ou até mesmo com o título. Não, não é bem isso. O final tem de ser coerente com a jornada, com o título, com as personagens e com o sentimento que quem o escreveu quis passar. O final não tem de ser coerente com o leitor. O leitor ainda não existia na equação quando o livro foi finalizado.

Tendo dito tudo isso, o final de Pessoas Normais é, sim, um final perfeito. Não foi perfeito com relação às minhas expectativas, mas foi perfeito por ser totalmente coerente com a história e com sua proposta. Se amei o que Sally Rooney estabeleceu como final? Não. Mas, se formos pensar bem, existem finais conclusivos, com todos os pingos nos i’s, na vida real? 

Portanto, não acho coerente de minha parte dizer que não gostei da leitura por conta de um final totalmente coerente. Connell e Marianne, pessoas extremamente normais que se acham anormais (quem nunca?), por erros e acertos conseguiram se manter vivos graças um ao outro. Amor incondicional? Alguns vão discordar e dizer que estou romantizando relacionamentos tóxicos, mas não vejo dessa forma. Os dois se amaram apesar de todos os defeitos do outro, mesmo quando esses defeitos feriam. Se amaram porque a parte boa de cada um deles valia a pena. No fim das contas, tiveram um final feliz à moda vida real.

Uma resenha completa vai sair lá no meu canal do YouTube em um futuro próximo, enquanto a resenha resumida vai sair lá no meu Instagram, também em algum momento futuro.

Agradeço por ler até aqui e, se tiver algo a comentar, fique à vontade.

Beijos

Uma mente criativa num mundo capitalista

“Me dê atenção, me dê atenção! Você tem que escrever sobre isso AGORA! E, já que está me dando atenção, aproveita e grava aquele vídeo, organiza sua vida pra 2021 e põe no papel todas essas ideias que você me deu.”
O trabalho à espera limpa a garganta um pouco alto demais.
“Sabe, eu até entendo que sua mente é criativa e tal, mas… eu não consigo me terminar sozinho. Sei lá, talvez você deva deixar isso pra depois.”
Os pulmões gritam desesperadamente.
“Estamos no nosso limite!! Dá pra soltar o ar, por favor?”
Os olhos se enchem de água enquanto os pulmões se aliviam.
Pudera eu fazer da minha criatividade meu trabalho todos os dias!

Solo raso – Sandro Muniz

Esta resenha foi originalmente publicada no meu perfil do Instagram em 24/10/2020.

Pedro é um arqueólogo que passou por uma situação traumática em um dos campos em que colhia materiais e, por isso, é enviado para trabalhar em outro estado (e, ao mesmo tempo, secretamente tentar impedir que uma ilha seja desmantelada em prol do capitalismo). ⁣
Só que o que era para ser apenas um trabalho para ajudá-lo a se recuperar de um trauma passa a ser uma investigação clandestina sobre o desaparecimento misterioso de mulheres, campos minados, padres que não são padres e sobre as verdades históricas contidas nesta ilha esquecida Brasil adentro.⁣

Com capítulos alternados entre personagens principais e coadjuvantes, Sandro Muniz vai criando uma atmosfera que não sabemos exatamente como definir, mas que constrói a história de maneira singular. O autor chega até a fazer experimentos muito interessantes em determinados capítulos, o que dá uma aura ainda mais peculiar à obra. A temática em si é outro ponto de destaque, pois gera reflexões acerca das realidades a que estamos acostumados e sobre as bolhas que, inevitavelmente, acabamos colocando ao nosso redor. ⁣

“Como o sapo, que é colocado na panela ainda fria no fogo, morre porque não percebe que a água ferveu, as pessoas são acostumadas com o vil e as barbaridades do dia a dia em que estão inseridas. São violentadas em silêncio, vivem morte e injustiças todos os dias e passam por isso como se tomassem banho ou comessem. É a institucionalização do antiético. É ingenuidade desejar que aqueles que dominam favoreçam um modo de educar que proporcione aos menos favorecidos perceber as injustiças sociais de maneira crítica, isso acabaria com a dominação dos ricos.”⁣

Além de todos os argumentos acima, a trama, apesar de ser ficcional, tem alguns pontos baseados em fatos (que eu desconhecia, aliás). Definitivamente original e bem pensado!⁣

Solo Raso está incluso na assinatura do Kindle Unlimited ou pode ser comprado por apenas R$ 8,99 na loja Kindle. Para adquiri-lo, basta clicar aqui.

Contos ordinários de melancolia

Um livro que chama a atenção pelo título; melancolia para uma melancólica. Existe melhor combinação?

A resposta é: sim, existe.

Contos ordinários de melancolia é uma leitura daquelas TÃO peculiares e TÃO experimentais, que, em determinado momento, estamos lendo tanto pela arte daquela junção de palavras toda quanto pela história que está sendo contada em cada um dos contos-poemas.

Mas o que seriam exatamente “contos-poemas”?

Exatamente o que parecem ser: um híbrido entre os dois gêneros literários, tão misturados que, às vezes, é impossível dizer que texto pertence a qual estilo.

O livro é dividido em 4 seções: Mata ciliar, Quem enfia o dedo se engana?, Mar, e Ainda é ordinário o que se levanta do mar?.

Eu diria que cada uma das 4 seções representa um conto composto por poemas (ou prosas poéticas) que transformam até o sumário (aqui chamado de Sumadorio) em algo belíssimo de se ler.

O livro, aliás, é tão inovador e tão belíssimamente artístico que, por diversos momentos, deixou a seguinte frase ecoando na minha cabeça: este livro deveria estar em um museu. Pois eu realmente me senti como se estivesse sentada em um daqueles bancos na frente de quadros nos museus, onde nos sentamos para absorver tudo o que a pintura tem a nos dizer.

Isso porque, em apenas 82 páginas, Ruth Ducaso dá um nó na cabeça do leitor a partir do primeiríssimo poema. É post-it colado pra tudo que é canto tentando captar todas as formas de interpretação de apenas algumas linhas; é um fluxo de consciência tão incrível e intenso que, em determinado momento, o leitor pode se deparar com o seu próprio monólogo interior refletido nas páginas. Quem diria que outras pessoas também escrevem frases sobre um assunto enquanto pensam em (ou escutam) Caetano Veloso e, quando dão por si, o texto já se transformou num misto de todos os sentidos e sensações que as circundam?! 

E quem diria que um título que se refere à melancolia trataria de temas ainda mais pesados do que o leitor imaginava?!

Alguns contos-poemas são chocantes por serem explícitos; outros chocantes por poderem significar mais do que se pensa. Destaque para os textos Mata ás, Se eu soubesse escrever poema erótico me aliviaria nestes signos, Oito e Sete.

A narrativa de Ruth Ducaso é peculiar; única. Ela trabalha as palavras de modo que alguns contos-poemas dão a sensação de que está faltando alguma coisa, de que há um vazio ao fim da frase. Os contos epistolares contidos aqui talvez expliquem o que significa exatamente essa falta, quem exatamente ela significa.

Fica aqui apenas o aviso de potenciais gatilhos com relação aos temas de depressão, suicídio, violência contra a mulher e abuso sexual infantil.


Ruth Ducaso é, na verdade, Luciany Aparecida. 

A publicação é da editora ParaLeLo13S e o livro foi enviado na categoria Livro do mês (de agosto) do Clube da Baleia, da Livraria Baleia. Mais do que recomendado! (Tanto o livro quanto o clube).

Fiat Lux!

A luz que queima é a mesma que acende?

Um bombeiro que coloca fogo poderia, em algum momento, enxergar que sua profissão não era bem assim nos primórdios? O fogo que o consome é pela destruição ou pela curiosidade de algo mais?

Fahrenheit 451 não é novidade para ninguém. Considerado um clássico da literatura, o livro nos alerta sobre os perigos de se ter livros, mas não lê-los; de lê-los, mas não entendê-los; de nos contentarmos com entretenimentos fáceis em vez de recursos que agregam; de esquecermos o real significado de família, amigos e felicidade em consequência disso tudo.

Com diálogos rápidos, fluidos e cativantes, Ray Bradbury nos apresenta um mundo distópico que, em 2020, não é mais tão distópico assim. (As pessoas preferem ver Reels do que resenhas literárias, afinal de contas).

Se os parênteses acima soaram um pouco elitistas para você, talvez você se incomode com os mesmos pontos com os quais eu me incomodei nessa história. Bradbury, por meio de um de seus personagens principais, afirma que o que acabou com o mundo foi o fato de o homem ter dado fim à superioridade/inferioridade (afirmando veementemente que quem lê é superior a quem não lê, além de colocar a “culpa” do desaparecimento dos livros nas minorias). Sendo eu uma pessoa que sabe diferenciar narrador de autor, relevei tais afirmações naquele momento, apesar de elas terem me incomodado, e teria achado de muito bom tom – aliás, teria ficado muito feliz – se a editora tivesse escolhido não publicar uma nota do autor ao fim, pois tal nota confirma que, naquele momento, não era a voz da personagem falando, mas sim do próprio autor. Sim, Bradbury estava falando “É tudo mimimi” antes de a expressão existir. Para quem quiser saber de onde tirei essa aparente heresia, basta ler as páginas 65 e 66 do ebook e depois a seção Coda e tirar suas próprias conclusões. Se elas forem diferentes das minhas, não tem problema também, ok? (Mas a minha vontade de ler histórias em quadrinhos quadruplicou, só digo isso. Fiquei até me imaginando me encontrando com o autor no além-mundo e forçando-o a me observar lendo HQs. Faria questão, inclusive, que fossem adaptações dos livros dele. Desculpem, me exaltei porque ainda estou irritada).

Fahrenheit 451 é uma obra que ainda indicaria por ser original, mesmo já tendo virado clichê por ter inspirado várias outras histórias no mesmo estilo, e por causar tantos questionamentos que acabamos por ficar com ela (e com o autor) na cabeça por dias a fio.


Publicação: Biblioteca Azul | Tradução: Cid Knipel