Sanhaço vermelho

O texto a seguir foi produzido na live de escrita de 27/12/21. Não me lembro da prompt, pra variar. (E parei para pensar ainda ontem que uso o feminino para me referir à palavra “prompt” enquanto muita gente usa o masculino. Divagação que nada tem a ver com o texto.)

O meio do deserto tinha sido um bom lugar para se morar, até que veio a tempestade de areia.

Aquela mesma, que matou meio milhão de pessoas no inverno de 2040, foi se arrastando ao longo dos estados até chegar no que antes era a floresta amazônica. Coincidentemente, era ali que ela morava.

Nunca fora de odiar pessoas, mas também não as queria superpróximas. É aquela história: nada contra, mas também nada a favor.

A tempestade, porém, fizera com que ela tivesse que juntar suas coisas com as dos vizinhos que moravam a um quilômetro de distância, e esses vizinhos também abrigavam outros vizinhos que moravam em lugares menos seguros. Ou seja, a mulher que passara 40 dos seus 62 anos vivendo sozinha agora tinha que descobrir como viver em sociedade novamente e, colocando seu orgulho de lado, precisava admitir que não era tão difícil assim. Aliás, a proximidade às vezes fazia muito bem.

No entanto, aquelas crianças chorando, os gatos pulando de um lado para o outro e o papagaio gritando com o cachorro, no meio da briga entre casais que estavam estressados por conta da tragédia, faziam com que ela quisesse arrancar os cabelos.

Se ao menos ela tivesse cabelos!

Ela saiu da pequena casa para tomar um ar, mas imediatamente se lembrou do motivo de não fazer isso frequentemente. A areia que entrou pelas narinas poderia arranhar seus pulmões de forma a reduzir sua vida em dez anos a cada dez minutos de exposição.

Ainda assim, o que ela não daria por 15 minutos do mais absoluto silêncio!

Sentou-se sobre a mureta do lado de fora e fechou os olhos. Imaginou-se de volta nos anos 1990 do século passado, nos arredores de sua casa de infância, em meio às árvores que farfalhavam e aos pássaros que cantavam todos os dias no mesmo horário. Às vezes, ela se sentava à beira do riacho que havia descoberto em uma de suas andanças e ficava inventando diálogos para os pássaros.

“Belo dia, não?”

Um dizia ao outro. E o outro:

“Está ótimo para fazer um ninho novo. O que acha?”

Um era vermelho; o outro, verde-oliva. Será que os sanhaços-de-fogo começariam uma nova família?

Ela riu dos devaneios, das memórias vívidas. Com aquela idade, não sabia que era esse o nome real dos pássaros. Naquela época, podia jurar que a espécie se chamava “assanhaço”, pois achava que era derivado da palavra “assanhado”.

Bons tempos, bons tempos.

Queria que as pessoas tivessem cuidado melhor do planeta.

Depois de um tempo, ela até se acostumara a morar no deserto, a viver sem água por dias, se adaptara ao novo normal. Ainda assim, às vezes tudo parecia um sonho, como se ela realmente tivesse ido parar em um universo paralelo acidentalmente em algum momento de sua juventude.

Era uma pena não ter como saber se isso realmente havia acontecido. Só sabia que provavelmente a mudança ocorrera naquele fatídico dia em que ela decidira deixar as pessoas para trás por ter se cansado delas. Até hoje se perguntava se havia tomado a decisão certa.

Respirou fundo; tossiu. Ainda valia a pena tomar essa golfada de ar, ainda que com ele viesse uma tonelada de areia. Ainda a acalmava.

Não quis abrir os olhos, não ainda. As memórias estavam boas, reconfortantes, e ela só queria aquele momento de paz.

Sentiu algo pingar sobre sua bochecha. Seria possível que teriam chuva depois de cinco anos?

Abriu os olhos e seu coração quase parou ao olhar para cima.

Um Sanhaço-de-fogo vermelho estava se equilibrando numa telha. Ela nem achou que aquilo fosse possível, mas ali estava ele. Seria um milagre?

Mais importante: será que ele chorava as perdas do passado também? Teria sido a lágrima dele que caíra sobre sua bochecha?

Se fosse ou não, aquela gota agora se fora, pois estava misturada com as muitas outras gotas que saíam pelos olhos dela.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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