Sonho peculiar

O texto a seguir foi produzido na minha live de escrita na Twitch de 27/12/21. Não lembro exatamente da prompt, mas tinha a ver com um folheto achado no chão e como ele mudou a vida do personagem. Fiquem, então, com um miniconto bem bizarro que saiu das vozes da minha cabeça.

Os últimos anos nos ensinaram duas coisas:

  1. Deixar para amanhã o que se pode fazer hoje é mais real do que um mero ditado popular;
  2. A raça humana é podre e não há mais salvação.

A mensagem me veio por um folheto de viagens jogado no chão, daqueles que as pessoas pegam por educação ao passar por uma pessoa na rua e, depois, jogam no lixo (ou pelo menos deveriam jogar). Foi o ato de me abaixar para jogá-lo, de fato, na lixeira, que mudou toda a minha vida. Foi ali que entendi que, se a covid (ou os antivaxxers) não haviam me levado até agora, era porque ainda não tinha realizado meu verdadeiro sonho, aquele que tinha desde criança.

A moça da agência de viagens ficou muito feliz; afinal, um lugar tão caro quanto a Antártica lhe daria uma gorda comissão, boa o suficiente para que ela não precisasse mais escolher para quais sobrinhos poderia dar um presente de Natal, nem se preocupar com o valor do hotel no qual seus pais iriam passar a noite de réveillon.

Mas, é claro, ela nem sonhava que minha jornada estaria apenas começando quando eu chegasse no polo gelado. Ela nem imaginava que minha missão era ir e não voltar mais.

Quando cheguei aqui, foi bem difícil de me acostumar com o frio. Eu achei que ia morrer no primeiro dia, isso porque eu estava com todas as roupas possíveis. A única coisa que faltava para ficar ainda mais protegido era ser comido por um urso polar. Isso, felizmente, não aconteceu.

A adaptação, no entanto, foi ficando cada vez mais fácil. A cada dia eu tirava uma peça; a cada dia eu chegava mais perto.

Eu observava com cuidado e anotava cada detalhe de sua vivência, onde eles dormiam, como eles nadavam, quanto tempo ficavam debaixo d’água, a que profundidade desciam, quem eram os predadores e onde esses predadores estavam.

Descobri que a casa dessas criaturas que me fascinavam era o mundo, assim como a minha. Um ponto em comum era uma alegria a mais para mim, já que éramos diferentes em praticamente tudo. Dormir em pé, por exemplo, foi uma grande dificuldade que tive no começo. Demorou para que percebesse que deixar os calcanhares em contato com o gelo, mas não os dedos, era o que mantinha minha temperatura corporal em um nível aceitável.

Aos poucos, também fui aprendendo a colocar a cabeça dentro do casaco de zíper de um jeito que não me causaria um baita de um torcicolo no dia seguinte.

A cada dia, fui descobrindo um fato a mais, um detalhe que me fazia ser cada vez mais aceito por eles, que me deixava chegar mais perto. O dia em que um deles me deixou tocar em sua asa foi um dos mais inesquecíveis da minha vida! Acho que foi ali que eles entenderam que eu estava ali para realizar um sonho porque, no dia seguinte, eu já mergulhava com eles em busca de peixes, e demorou apenas uma semana depois disso para que eu fizesse parte do grupo que dormia em conjunto para melhor aquecimento.

Hoje faz um ano que cheguei aqui e talvez seja a última vez que eu escreva neste diário. Afinal, pinguins não escrevem, e é a única coisa que me falta para deixar de ser humano de vez.

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Publicado por Elaine Trevizan

Leitora assídua, tradutora, intérprete (sim, são duas coisas diferentes), bookstagrammer, escritora em construção. Hipérbole é meu nome do meio.

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