O NetGalley é, talvez, a plataforma online mais viciante para amantes de livros. Tendo uma seção em que os livros já são automaticamente disponibilizados, sem a necessidade de solicitação, fica muito fácil perder o controle e sair baixando todos os livros que nos interessam. E foi em um desses descontroles que baixei Stazr – The World of Z, sem esperar absolutamente nada, e fui gratamente surpreendida.
No livro escrito por Dr. Anay Ayarovy, acompanhamos Ratadat Lael, um jovem escritor um pouco arrogante demais para o meu gosto que, ao ser interceptado por um Shwine (uma mutação do porco terrestre), passa a acreditar que pode ser O escolhido do qual uma certa profecia fala.
Embarcamos nessa jornada de autodescoberta de Lael e em suas aventuras que vão desde simples lutas contra fenômenos naturais até lutas corporais com ratos mutantes que querem comê-lo e se vingar por serem de uma espécie inferior – tudo isso regado a pó de arco-iris, pó estelar e muitos outros nomes que, na nossa imaginação de terráqueos, só ouviríamos mesmo falar em histórias de fantasia infantojuvenis. Nesse sentido, a obra lembra um pouco a atmosfera do clássico O mágico de Oz, mas as coincidências param por aí.
Em Stazr, somos apresentados a um universo em que os humanos são apenas memórias e consequências que deixaram num planeta distante, seja em forma de dano concreto ou em ideias que acabaram sendo propagadas para outras espécies. Em meio a árvores que se movem, seres mutantes e visões que podem ou não ser reais, ficamos imersos nesse mundo à medida que a autora vai construindo o suspense e nos guiando para um fim que, na verdade, poderia muito bem ser o começo.
A obra aparentemente é parte de uma série, além de contar também com muitos outros materiais visuais para complementar o universo criado por Ayarovy. Outro ponto positivo é que todos os termos criados pela autora são explicados em notas de rodapé, e é assim que ficamos sabendo que criatura “evoluiu” de qual e os motivos por trás dessas mutações.
O livro não está mais disponível no NetGalley, mas pode ser encontrado para compra em e-book aqui.
Para quem quiser saber mais ou ver a resenha em um formato diferente, falei sobre o livro em inglês na minha página do Instagram. Basta clicar aqui.
Uma frase aparentemente simples, mas que fica presa dentro da cabeça dela. O que sai em seu lugar é:
— Não, eu não sou o que você está dizendo que eu sou.
Por que é tão difícil para as pessoas admitirem seus defeitos?, é o que fica preso na cabeça da interlocutora. Não há resposta para isso.
Ela respira fundo, mas não consegue deixar de pensar em si, em todos os momentos em que a amizade se tornou tóxica e ela deixou passar. Afinal, é melhor ter alguém que se importe do que ninguém, certo? Não tem problema que a pessoa com que se tem amizade não respeita quando você diz que determinado assunto te causa ansiedade, que ficar tentando te irritar falando sobre como sua banda preferida é ruim não é brincadeira de adulto, que qualquer coisa que aconteça no Twitter deveria ficar no Twitter e não ser compartilhada com alguém que escolheu sair do Twitter. A pessoa que aparentemente se importa continua desrespeitando sua ansiedade, continua tentando te irritar, continua te mandando threads do Twitter. Continua sendo tóxica mesmo dizendo que não é. Porque é raro encontrar alguém que reconheça sua própria toxicidade.
A interlocutora, porém, é uma das raras exceções. Ela sabe que é tóxica quando quer, às vezes até manipuladora. Ela já foi dessas que sufocam e foi assim que descobriu que sufocar é diferente de gostar. Ela pode ser tóxica e sabe disso, a diferença é que ela trabalha em seus defeitos, a tal ponto que ela chega a achar que suas qualidades são invisíveis, irrelevantes. E é justamente por isso que ela se pergunta o porquê de atrair pessoas para sua vida que estão apenas preocupadas com o próprio sentimento, despejando tudo o que elas sentem sobre ela, como se ela fosse uma caçamba de rua cuja única função é receber esse entulho emocional.
Não seria hora de isso tudo acabar? Mas, se acabar, quem vai se importar? Um relacionamento que não faz bem é realmente melhor do que nenhum relacionamento?
Pela primeira vez na vida, a interlocutora dá uma resposta adequada:
— Obrigada pelos bons momentos, mas vou escolher a mim mesma desta vez.
Não, ela não digita a resposta que disse em voz alta. O silêncio basta. Finalmente o silêncio.
E então ela pensa sobre a frase que foi praticamente sua trilha sonora durante a vida toda, uma trilha sonora que nunca foi música, mas flutua em seu cérebro desde que foi dita pela primeira vez. Ela respira fundo novamente e percebe que realmente a solidão é uma escolha, mas que amor próprio também é.
Ela sorri em meio às lágrimas. Ouve as maritacas passando em revoada, ouve as vozes ao seu redor em sua casa. Não, ela não está sozinha. Ela tem três pessoas e três gatas que são seu mundo. Ela tem amigxs que não ficam constantemente exigindo sua atenção, mas de cujo amor ela não duvida. Ela tem, sim, pessoas que se importam. Aqui, ao seu lado; no sul, no norte, no sudeste, no nordeste. Ela sorri porque percebe quem são os seus de verdade.
Talvez os pensamentos dos acontecimentos desse dia fatídico fiquem com ela em forma de cicatriz. Mas é só isso que eles serão: só mais uma marca, um sinal, um lembrete, estrias de um crescimento súbito, mas necessário. Porque ela decidiu, a partir desse dia, escolher a si mesma todas as vezes em que precisar escolher.
Eu quero explodir. Virar uma heterogeneidade de carne que hoje parece homogênea. Dos pés à cabeça, tudo dói. Por dentro, por fora, na parte invisível. Os neurônios. As sinapses não feitas ou feitas em excesso (será que existe isso?), o peito que sacode feito uma bateria de escola de samba, só que sem felicidade. É puro desespero de um coração que está pedindo permissão para explodir. Será que explode? E se explodir, o que vai virar? O que vai deixar? Será vazio ou alívio? Na atual situação, talvez alívio. Por enquanto, converso com ele e peço que escute Fernando Pessoa e sossegue. Talvez um coração partido em mil pedaços valha mais que um coração que não existe mais.
Acordei cheia de ideias, de criatividade, de fazer do mundo um lugar melhor. Uma mudança repentina em meu costumeiro humor soturno dos dias atuais, um humor tão cinza que parecem os céus de São Paulo numa segunda ou sexta-feira.
Mas o humor de hoje é colorido, feito o céu com sol lá fora. Hoje, um sábado, parece tão cheio de possibilidades e de vida que é quase um desperdício ter de ficar em casa. Mas ficar em casa é sempre a melhor opção. Ficar vivo é – e sempre será – a melhor opção (que os dias de humor cinzento me ouçam muito bem!).
Me pergunto os motivos disso. Terá sido a boa noite de sono? Terá sido o episódio da série favorita antes de dormir? Terá sido a releitura daquele livro querido? Terá sido a tomada de uma simples e minúscula decisão? Terá sido o elogio não esperado ou as memórias de um ano atrás? E, ao mesmo tempo em que me faço esses questionamentos e me embrenho em pensamentos sobre os reais motivos do bom humor, chego à conclusão de que o motivo está bem aqui: estou viva; estamos vivos. Apesar de tudo, estamos em pé (mesmo que deitados) em nosso privilégio que nem sempre reconhecemos.
Motivos são misteriosos, às vezes. Mas, às vezes, eles são tão escancarados que pensar demais pode fazê-los escapar da compreensão, voando quase na mesma velocidade das maritacas que passam em bando todos os dias pela minha janela.
Pensar demais estraga.
Portanto, hoje me permitirei não pensar. Me permitirei gozar dessa leveza que a mente me deu por algumas horas. Me permitirei sentir tudo isso ao máximo para que dure mais do que um dia inteiro.
Quando tudo isso acabar Vou morar perto do mar. Talvez NO mar. O chamarei de lar. E só para rimar E antes de estragar Ou de eu ficar sem ar Esse poema precisa terminar.
*Também conhecido como “A pior coisa que já escrevi” ou “Uma criança do primeiro ano escreveria algo assim”. Da série: as vantagens de não se ter leitores.
Angry at the world for not being enough for me, angry at myself for not being enough for the world. Angry at my mom who thinks of her father instead of thinking of herself, angry at me for thinking of my mom instead of myself.
Angry at a 3-year-old who is in charge of a country and who wants everybody dead. It is genocide he is committing and all we can do is sit and watch it all unfold. I’m angry that I am so powerless I can’t even write these words properly. These words are like shouting into the void. No one is listening, no one cares to listen. Listening takes courage; listening takes being silent so that other words can be heard. Maybe I am not being clear about what I want and what I don’t want. Friends seem like acquaintances who don’t know me at all. It’s not their fault, it’s entirely mine. I’m the one who pushes them away because I’m too afraid of showing them who I really am. They’ll probably mock me or try to change me, for that’s what has always happened. I never once found anyone with whom I could be my true self. Thirty-three years and two hundred sixty-seven days of loneliness.
And that’s when paranoia comes in. Paranoia. Paranoia. Paranoia. Does anyone really like me or are they all just pretending because they pity me? Am I really sick or am I just pretending to be just so I can have an excuse not to live properly? I’m weak. Weak. Weak. I’m also strong. Strong. Strong. I don’t even know the difference between these two anymore. It’s all an abstract mess inside my head, like those paintings at which you have to stare long and hard to try and figure out what they mean. Even these words are coming out just the way my brain wants them to come out. They are only words, after all. Words. Words. Words. Pure. Raw. Meaningless.
É difícil começar uma resenha quando um livro fala tanto conosco. É muito difícil porque parece que, não importa o que eu escreva, ainda nunca será uma análise completa ou que esteja à altura de uma obra como A viagem.
Primeiramente, é importante dizer que o que encontramos na obra de Woolf não é um enredo convencional, uma história como todas as histórias contemporâneas ou até mesmo como os romances clássicos. A escrita de Woolf é singular em sua sutileza e em sua beleza, em sua capacidade de expressar sentimentos, pensamentos e pontos de vistas de forma tão bela que o leitor acaba se perguntando se algum dia foi necessário haver, de fato, um enredo para qualquer história que seja. Portanto, é bom que as pessoas saibam que, ao se iniciar na obra de Woolf, elas estarão entrando em pensamentos e sensações, não em romances épicos com mocinhos e vilões e com histórias de amor para aquecer o coração. Virginia fala sobre a vida como ela é, como ela é sentida e, como boa integrante do movimento modernista na Inglaterra, não narra as ações de seus personagens da maneira como os realistas fariam. Temos uma vaga ideia de como é a aparência deles, por exemplo, cabendo a nós formarmos as devidas imagens em nossa cabeça da maneira como bem entendermos.
Pois bem. Passando da breve explicação sobre o que podemos esperar de uma obra de Woolf, em A viagem somos primeiramente apresentados ao casal Ambrose e sua aparente classe social para que, então, conheçamos Rachel, personagem principal desta história e uma mulher de 24 anos que viveu a vida toda em uma bolha (ou melhor, em uma casa com duas tias e em um navio com um pai superprotetor). O encontro entre Helen Ambrose e Rachel é o gatilho para o restante da história, já que Helen percebe a ingenuidade da sobrinha e assume a missão de educá-la em tudo o que diz respeito à vida, talvez até como forma de substituição aos filhos que teve de deixar para trás ao viajar com o marido em direção à América do Sul.
Durante os seis primeiros capítulos do livro, o ritmo é ótimo e ditado pelos diálogos entre os Ambrose, Rachel, seu pai e o casal Dalloway (que acabou pegando uma carona em determinado momento da história). O que vemos nesses diálogos são as discussões pertinentes – não só para a época como também para os tempos atuais – sobre classe, política e a posição da mulher na sociedade; tudo isso visto pelos olhos dessas personagens que não poderiam ser mais diferentes umas das outras, cada uma com seus pontos de vista com os quais nos identificamos ou os quais repelimos. Um bom exemplo disso é Mrs. Dalloway que, em sua primeira aparição na obra de Virginia, se apresenta a nós, leitores, como uma mulher insuportável e meio sem noção da realidade, já que vive na sua própria bolha da classe alta.
E por falar em classe alta, o tópico de diferença social é um dos pontos de discussão durante toda a história, desde as descrições das pessoas nas ruas de Londres até os diálogos das pessoas ao longo da trama.
Quando se desistia de ver a beleza que vestia as coisas, aquele era o esqueleto que ficava por baixo.
A citação acima se refere à cidade e às pessoas que a habitam, mas também serviria muito bem para descrever outro tópico abordado por Virginia em A viagem: o amor. A obra é permeada por questões como “será que o que sinto é amor?” “por que as pessoas nunca falam o que realmente sentem?” “só existe um tipo de amor?” e muitas outras que não são totalmente explícitas, mas entendemos nas entrelinhas. E como expressar o que se sente? Como descobrir o que se sente? Para Rachel, é através da música; para Virginia, é através da escrita.
É praticamente impossível dissociar Virginia de sua obra, e isso é muito visível aqui em seu primeiro romance. Ora ela é Helen, ora é Mrs. Dalloway, ora é Terrence Hewet, e ora é Rachel. Ora, não. Virginia é quase sempre Rachel. Para quem já leu as obras de não ficção com as quais começamos o projeto, também vai reconhecer Virginia em diálogos sobre Jane Austen e as irmãs Brontë, entre outras coisas. Para aqueles que conhecem a vida de Virginia mais a fundo, também encontrarão no diálogo entre Richard e Clarissa Dalloway o sentimento de inveja que por vezes assombrava Virginia: o fato de sua irmã ter filhos e ela não.
– Ela tem filhos? Não parece.
– Dois. Um menino e uma menina.
Uma inveja aguda varou o coração de Mrs. Dalloway.
Além disso, é possível ver muito da personalidade de Virginia nos questionamentos sobre o que é real e o que não é (talvez Philip K. Dick se identificasse com ela nesse aspecto), qual é o sentido da vida e o que de fato importa. Devaneios acontecem, mariposas aparecem para quebrar um ritmo e dar início a outro, pessoas são envoltas em névoas e cenas estranhas acontecem – em resumo, o fluxo de consciência de Virginia já começava a dar as caras.
Bem, após longos (porém curtos) capítulos de ritmo BEM mais devagar que os capítulos do começo, nos encaminhamos para um fim que pegou muita gente de surpresa (apesar de que, lendo novamente as anotações para escrever este texto, cheguei à conclusão de que Virginia deu muitas pistas para que chegássemos a uma conclusão por nós mesmos e nós é que não vimos). Mas qual é o significado de fim para Virginia? A morte é mesmo o fim? Ou será que o fim não existe, já que a vida continua para os que ficaram? Talvez não tenhamos uma resposta exata para isso, mas só sei que o fim me impactou e por diversos motivos. (Quem quiser, pode me ver falando sobre ele aqui).
Analisando a obra como um todo, acredito que A viagem seja uma obra completa, ainda que seja possível ver também que a escrita de Virginia não estava em seu auge de maturidade. Há muitos, muitos pontos MESMO que não mencionei aqui, mas que deixo para vocês descobrirem por si próprios quando lerem A viagem. E espero que leiam, pois vale muito a pena.
A viagem foi traduzido para o português do Brasil por Lya Luft e publicado pela editora Novo Século. Apesar de o livro já não estar mais disponível em estoque na editora, ainda pode ser encontrado em sebos e em bom estado. Quem tiver interesse, pode acessar este link para dar uma olhada. 🙂
Ontem tive um surto. Meu cérebro parecia que ia explodir. Mensagens no WhatsApp sobre o Covid-19, mensagens na minha cabeça sobre a melhor forma de gerenciar um grupo de discussão sobre Virginia Woolf que, de repente, havia mudado de foco – e fazer isso sem magoar ninguém, claro. Tarefa impossível, descobri tarde demais. Os jornais na TV que só falam sobre o novo coronavírus 24 horas por dia (será que de repente o Brasil se tornou um país modelo em que nada de errado acontece? Será que não acontece mais nada de bom por aqui também?). Amigos de outros lugares do mundo que desabam em mim sobre seus pânicos e medos de morrer porque, sendo eu extremamente empática, ouço da melhor forma e não digo a eles que isso está me fazendo mal, que o pânico deles está se transformando no meu, mesmo eu tendo jurado para mim mesma que não entraria em pânico. Toneladas de posts no Instagram sobre o que fazer em tempos de quarentena, mensagens motivacionais que, no fim das contas, estavam me fazendo acreditar que, se eu sentisse qualquer coisa além de esperança, estaria indo na contramão e não seria aceita em qualquer mundo que fosse. Sou culpada disso também, também contribuí para essa enxurrada de posts com a melhor das intenções. Mas também me lembrei que de boas intenções o inferno está cheio. Veio então a reflexão: será que, ao compartilharmos na tentativa de ajudar, não estamos, na verdade, atrapalhando?
Decidi, então, desligar meu celular por 24 horas (no mínimo). Afinal de contas, eu sobrevivi sem celular até os 15 anos de idade; sem redes sociais, então, até meados de 2004. Para quem não conheceu os tempos felizes antes da Internet, talvez isso seja algo inconcebível, inimaginável, impossível. Mas, para mim, foi um alívio.
Parece que bastou desligar o celular para que a minha vontade de ler voltasse (porque antes eu estava com a impressão de que estava lendo apenas para produzir conteúdo, em vez de ler porque eu QUERIA ler. E pensando pelo lado de que o meu conteúdo é consumido por pouquíssimas pessoas e que fico cada dia mais desanimada com a falta de interesse de muita gente sobre o que tenho a dizer, produzir conteúdo ou não faria um total de 0 diferença para o mundo); bastou desligar o celular para que a minha vontade de maratonar uma série nova sem ter de compartilhar com o mundo voltasse; bastou desligar o celular para que a minha vontade de escrever e compartilhar meus escritos sem imediatamente me comparar a outras pessoas (e me achar um lixo) voltasse.
O que quero dizer com tudo isso é que o excesso de informações pode sim ser prejudicial. Pode levar pessoas a sentirem coisas que não querem sentir, pode levar à desistência de algo que as faz feliz, pode levar a um surto baseado em eu-não-entendo-o-porquê-de-estar-viva-neste-momento-específico-da-história.
Se você se identificou com algum dos meus relatos, fica aqui minha recomendação: desligue o celular, as notícias, as vozes ao redor que se tornaram monotemáticas. Não precisa fazer isso para sempre, é lógico, mesmo porque o que eu disse na primeira parte do título deste post é verdadeiro. Mas, às vezes, tudo o que precisamos é de silêncio mundial. E de paz interior.
Alguns dos lugares incríveis pelos quais já percorri em busca de mim mesma e que, de uma forma ou outra, também me salvaram.
Sometimes I feel like I don’t know Sometimes I feel like checkin’ out I want to get it wrong Can’t always be strong And love it won’t be long
— Ultraviolet – U2.
—— [Este post pode conter gatilhos] ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Por lugares incríveis é um livro sobre a ânsia de viver e morrer; sobre a inquietação de não saber se se quer o primeiro ou o segundo. Porque, veja bem, quando se tem transtornos de ordem mental e/ou psicológica, esse tipo de sentimento está sempre presente e de forma extremamente aguçada. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Vemos isso tudo em Finch, um garoto que vive analisando a melhor forma de morrer e que, numa dessas “análises”, acaba encontrando alguém que também prefere pular de uma torre a lidar com as dores que a vida proporciona. Violet se torna o seu raio ultravioleta, enquanto Finch se torna a cola dos pedaços de Violet que ficaram espalhados juntamente com os para-choques e vidros estilhaçados na estrada em que sua irmã morreu. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Unidos por um projeto das aulas de geografia, Finch e Violet saem em busca dos lugares incríveis de Indiana, descobrindo o amor em comum por literatura e pela arte em geral, citando Virginia Woolf um para o outro de forma que, talvez, só um amante de Woolf consiga ver a profundidade do que eles realmente estão dizendo. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ Já li duras críticas a Niven sobre a “irresponsabilidade” de escrever esse tipo de história para um público jovem, mas o que tenho a dizer sobre isso é que não poderia discordar mais. Queria gritar na cara da sociedade que não é só em setembro que temos que dar valor à vida, que não falar sobre assuntos assim com adolescentes é uma forma de alimentar o estigma. Vou completar a minha linha de raciocínio com um relato muito pessoal: sou uma pessoa propensa ao suicídio. No entanto, o que me fez soluçar de chorar durante o livro não foram os possíveis gatilhos, nem o que alguns viram como incentivo ou romantização. O que me fez soluçar de chorar foi pensar nas pessoas todas que ficam para trás e o mal – o efeito dominó – que a perda de uma pessoa para o suicídio pode causar. E é, sim, bem verdade que, na hora em que a morte parece ser a única opção para nós, não pensamos em mais nada e em mais ninguém. Mas o livro plantou uma semente aqui dentro – como a semente de Violet – que pode, sim, ajudar em crises futuras. Se essa semente for plantada em todos os que lerem esse livro, diria que Niven está ajudando a salvar muitas vidas, e não o contrário.
—- O livro foi publicado no Brasil pela editora Seguinte e traduzido por Alessandra Esteche. Quem tiver interesse em comprar, ele está disponível aqui.