
Pego um lápis, o marca-texto, as flags. Abro o livro. Leio duas frases. Marco o uso da palavra naquele lugar específico, me pergunto o que aquilo quer dizer. Leio mais alguns parágrafos, vejo que a cena muda abruptamente. Paro. Volto. Vejo onde exatamente a mudança aconteceu. Vejo que o autor jogou uma pista ali. Marco a pista ou a deixo quietinha no fundo da mente para consulta posterior. Marco a ausência de nomes, a presença deles, marco as críticas sociais, marco as frases que curti. Vou angariando mais pistas, riscando mais a cada momento, quase uma detetive, mesmo. É isso que dá ficar vendo a mesma série por mais de 25 anos.
O ponto de clímax chega, a situação toda é explicada de forma a surpreender o leitor e eu… Bom, eu já tinha descoberto tudo porque não deixei passar nada. Controlei minha leitura assim como controlo minha vida: rigidamente, sem brechas para erros.
Não, não me sinto fodástica por ter “resolvido” um crime ou descoberto a intenção do livro desde as primeiras páginas. Me sinto uma burra de não me permitir ter a experiência que o autor pretendia que eu tivesse.
A literatura ensina e eu, talvez, tenha que me permitir aprender que nem sempre o lápis na mão quer dizer “ler com qualidade”. Às vezes, a qualidade está em justamente se deixar levar sem grandes pretensões. Essa é a graça. Da leitura e da vida no geral.
Ultimamente tenho refletido sobre essa questão também! O quanto algumas leituras coletivas de obras mais complexas me fizeram adquirir esse hábito, que nem sempre é positivo, de investigar absolutamente tudo numa leitura. Numa discussão, é importante relembrar alguns pontos e os grifos ajudam muito com isso. Porém, em alguns casos preciso me “policiar” a deixar a leitura fluir e não me apegar tanto a essas investigações, correndo o risco de acabar com a graça da experiência 😥
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